Eles não dançam para chocar, mas para não maquiar. Em “Desmundos – Diálogos 1”, da Companhia Mão na Roda, quatro bailarinos desnudos – dois andantes e dois não – entram em cena para revelar a sua verdade: a beleza dos corpos deformados. A apresentação, marcada para esta noite às 21h, encerra a programação do Fórum da Diversidade e Igualdade: Cultura, Educação e Mídia, realizado no Serviço Social do Comércio (Sesc).
A concepção do espetáculo tem como referências vários caminhos literários, com destaque para Nietzsche em “Assim Falava Zaratustra”. Pintores contemporâneos ao filósofo e pertencentes ao movimento expressionista europeu, o alemão Otto Diz e o austríaco Egon Shiller também são fontes inspiradoras da obra. “Os dois pintores mostram com maestria essa decadência corporal”, aponta o coordenador da companhia, bailarino, coreógrafo e diretor artístico do espetáculo, Luis Ferron.
“Desmundos” trabalha com uma dramaturgia sensorial, abstrata, onde vários símbolos levam a platéia à reflexão do que lhe resta além do corpo. “É uma revelação do tão pouco que nós somos”, adianta Ferron. Se, por um lado, o espetáculo apresenta corpos com características fora dos padrões estabelecidos, por outro, apresenta a necessidade de vivenciar um novo olhar, romper paradigmas.
Assim, feito carnes que chegam ao frigorífico, os corpos dos bailarinos vão sendo pintados em cena, marcados, estigmatizados. O corpo humano também é dissecado em imagens exibidas em um telão. Tudo, como coloca Ferron, para “desnudar o que todos acabam sendo sobre uma mesa de metal: um monte de carne”.
A busca por corpos singulares – “Não gosto de corpos resolvidos, com códigos estabelecidos”, diz Ferron – continua em Diálogos 2, onde a terceira idade assume a dança. No 3, obesos mórbidos dominam a cena, enquanto em Diálogos 4, hip hop e escolas de samba dividem o palco.
Mão na Roda
Fundada pela Secretaria de Cultura de Diadema em 1999, o projeto Mão na Roda surgiu com o objetivo de atender a demanda de portadores de necessidades especiais, que atualmente recebem aulas de dança em diversos pontos da cidade. A criação de uma companhia partiu de uma solicitação natural de alguns que quiseram fazer da arte algo profissional.
Atualmente a companhia é formada por dois andantes e quatro portadores de deficiência que conferiram brilho aos limites físicos. “Meu olhar é de um artista contemporâneo e não de alguém que trabalha com deficientes físicos, mesmo porque eu não os vejo assim, eu os vejo como uma mina de potencialidade”, diz o coordenador do grupo, Luis Ferron.
A produção de “Desmundos”, que chega a Bauru depois de uma temporada de estréia no Teatro Gazeta Paulista, em São Paulo, só foi possível graças ao apoio do Itaú Cultural. Dos 500 projetos inscritos no edital 2006/2007 lançado pela instituição, “Desmundos” foi um dos 25 contemplados com uma verba de R$ 35 mil para a realização.
• Serviço
Espetáculo de dança “Desmundos”, da Cia. Mão na Roda, será apresentado hoje, às 21h, no ginásio de eventos do Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71). Ingressos por R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes), R$ 8,00 (usuários inscritos, estudantes com comprovante, professores da rede pública e maiores de 60 anos) e R$ 16,00 (demais interessados). Mais informações: (14) 3235-1751.