Bairros

‘Lusos’ conquistam bairros da cidade

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Hoje, décadas depois de encerrada a época colonial, os lusos ainda preservam em sua alma o espírito desbravador. Em Bauru, atualmente, podem ser encontrados diversos exemplos de portugueses que deixaram a terra natal para edificar uma nova vida entre remotas gentes.

Construir, aliás, era uma especialidade de Manuel Jacinto Melo, antes dele chegar ao Brasil. Natural da freguesia de Minhocal, província de Beira Alta (região norte de Portugal), ele era pedreiro e edificava casa “milenares”.

“Fazíamos sem usar cimento ou argamassa. Retirávamos as pedras da montanhas, em seguida as cortávamos em diferentes tamanhos, e por fim encaixávamos uma na outra. Nada no mundo era capaz de fazê-las cair”, recorda.

Apesar de se orgulhar de sua ‘arte’, Melo queria melhorar de vida. “Pedreiro não ganha bem em lugar algum, nem em Portugal nem no Brasil”, costuma dizer. Pensando assim, resolveu se tornar militar, no começo da década de 1960. Nessa época, quando ele tinha cerca de 20 anos de idade, o regime salazarista (iniciado na década de 1920) começava a ruir no país.

Movimentos separatistas eclodiram nas colônias africanas e muitos jovens começaram a ser mandados para a guerra, a fim de proteger as possessões que vinham sendo mantidas desde tempos imemoriais.

Mais ou menos por essa época, o jovem Diamantino Ribeiro Coelho havia acabado de se casar com Maria Emília Jesus Oliveira. Apesar de não fazer parte das forças armadas, ele decidiu se mudar para Bauru. Não que quisesse fugir da guerra. “Na verdade, vim para cá movido por uma ilusão. Portugal era um lugar muito pobre e ouvíamos falar bastante a respeito do Brasil. Todo mundo dizia que era um país promissor, onde as coisas estavam a ir bem”, recorda.

Coelho nem quis esperar: recém-casado, deixou a esposa e o filho de 1 ano em Leiria, cidade vizinha a Fátima, e veio para Bauru. “É que meu irmão morava aqui. O interessante é que, alguns meses depois de eu haver chegado, ele resolveu voltar para lá”, recorda.

Melo, por sua vez, teve de esperar. Como estava na escola da Aeronáutica estudando para se tornar mais um combatente da nação, ele não tinha como deixar o país. No quartel, porém, recebia notícias nada animadoras do campo de batalha.

“A maioria das cartas que minha mãe me mandava eram assim: ‘Meu filho, tu te lembras daquele nosso vizinho? Pois bem, ele morreu semana passada em um bombardeio’”, conta. Preocupado, Melo começou a rever seus conceitos; ele, que considerava a carreira militar tão promissora, passou a querer paz.

Antes que fosse convocado para a guerra, ele pediu baixa da Aeronáutica. Logo após ser liberado, veio para o Brasil com a namorada Maria da Missão Gonçalves Melo. “A gente se conheceu lá na aldeia. Havíamos estudado juntos quando crianças”, afirma.

Em São Paulo, os dois se casaram e montaram um bar. Nesse período, Diamantino já havia conseguido trazer a mulher para o Brasil. Após uma tentativa frustrada de morar no Paraná, o casal resolveu se ficar de vez em Bauru. “Desde o começo, gostei daqui. Este lugar é diferente da cidade grande - lá é só correria”, garante.

Manuel, ao contrário, demorou mais para conhecer a “Cidade Sem Limites”. “Vim morar aqui em 1988. É que minha filha tinha problemas labiopalatais, e precisava fazer tratamento no Centrinho. Resolvemos, então, comprar uma casa e montar um bar para trabalhar em Bauru”, diz.

Atualmente já aposentados, os dois garantem não trocar Bauru por outro lugar. “Já estou enraizado aqui em Bauru. Acho que não me adaptaria em Portugal”, garante Melo, 68 anos. Coelho, 74 anos, tem opinião semelhante. “Para falar a verdade, hoje me dou melhor com os brasileiros do que com meus ‘patrícios’”, afirma.

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Descanso

Artista das pedras em Portugal, Manuel Jacinto Melo passou a se dedicar à culinária quando veio morar no Brasil. Em Bauru ele manteve, por quase 20 anos, um legítimo recanto da culinária lusitana. Seu bar, o Di Portugal, localizado no Jardim Marambá, tornou-se conhecido em toda a cidade devido à qualidade dos pratos servidos - a maioria deles feito à base de bacalhau.

Depois de tanto tempo de dedicação, porém, ele a esposa, Maria da Missão Gonçalves Melo (a verdadeira artista dos pratos portugueses), resolveram parar para descansar. “Foram muito anos de atividade, tanto aqui quanto em São Paulo. Acho que, agora, chegou o momento de aproveitarmos a vida”, pensa ele.

Mas os aficionados pela culinária lusitana podem ficar tranqüilos pois, ao que tudo indica, o bar, localizado próximo ao Residencial Camélias, ficará em boas mãos. O gaúcho Roque da Rosa Farias está prestes a assumir o estabelecimento. Ele trabalhou durante quase dois anos no local e é descendente de portugueses. “Quando soube que eles estavam querendo parar com o bar, resolvi me oferecer para assumir”, diz ele, que tem 29 anos e está sendo assessorado de perto por dona Missão em seu aprendizado culinário.

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