“Você pode se sentar em uma cadeira de rodas e ir para uma feira, por exemplo, e ver como te olham. Tente paquerar alguém se fingindo de cego. Este pode ser um modo de as pessoas entenderem como os deficientes se sentem”, aponta o psicólogo especializado em sexualidade Fabiano Pulhmann, 42 anos. Consultor do Instituto Paradigma, uma organização civil sem fins lucrativos, ele passou a estudar a sexualidade de pessoas com deficiência desde que ficou paraplégico, em 1989. A deficiência surgiu depois de um mergulho mal realizado, em uma piscina, o que provocou paralisia dos braços e pernas.
Hoje, com 42 anos e casado, o psicólogo acredita que a sociedade tem avançado quanto à sexualidade de pessoas com deficiência, porém o preconceito ainda é grande.
De acordo com Pulhmann, que é membro da Sociedade Brasileira de Sexualidade, a auto-estima é questão fundamental na qualidade da vida sexual dos deficientes, mas ressalta que ela não é a única solução. “O deficiente físico precisa ser inserido na sociedade, ter emprego, poder ir a um bar, estudar, enfim, ter acessos como qualquer outra pessoa. Assim, fica mais fácil discutir problemas como sexualidade”, explica.
Segundo o psicólogo, há alternativas para mais de 90% dos casos de paraplegia, mas o maior desafio não é físico, e sim sociocultural. Estes e outros assuntos são discutidos na entrevista concedida por Pulhmann ao Jornal da Cidade. Confira os melhores trechos a seguir.
Jornal da Cidade - Qual é a importância da sexualidade na vida das pessoas com deficiência?
Fabiano Pulhmann - A sexualidade é um componente fundamental da saúde plena. Ela vincula-se a intimidade, afetividade, ternura e a um modo de sentir e exprimir-se vivendo o amor humano e as relações afetivas e sexuais. Sua influência está presente sobre todos os aspectos da vida humana, desde a concepção até a morte, manifestando-se em todas as fases da vida, infância, adolescência, fase adulta e terceira idade, sem distinção de raça, cor, sexo e deficiências. A sexualidade refere-se apenas aos aspectos genitais, considerando esta dimensão como uma de suas formas de expressão, e não a única.
JC - De que maneira o exercício da sexualidade contribui para a auto-estima do indivíduo com deficiência?
Pulhmann - Ninguém consegue ser feliz sexualmente se vive em conflito com o próprio corpo. Durante um tempo variável, dependendo de características individuais, pessoas que adquirem uma deficiência podem experimentar um estado depressivo, que impede a vivência plena do prazer sexual.
JC - Em geral, quais são os maiores desafios enfrentados pela pessoa com deficiência atualmente?
Pulhmann - Superar o trauma de adquirir uma deficiência não é tarefa fácil. Isto porque exige da pessoa com deficiência um esforço constante para exorcizar os fantasmas do passado. Superar o trauma é se despedir do passado, é desistir de um jeito determinado de ser e aceitar a inevitabilidade do tempo. Ele flui como um rio, levando tudo para um novo lugar. É uma nostálgica despedida de um corpo, de uma vida e de uma história, que apesar de ser do próprio indivíduo, hoje não faz mais nenhum sentido.
JC – Quais são os sentimentos que envolvem esta fase?
Pulhmann - Este estado é repleto de dúvidas sobre o futuro. A pessoa com deficiência sente-se meio anestesiada. A angústia dos primeiros momentos do acidente já está distante, a reabilitação segue com ganhos menos expressivos e a pessoa já consegue grande autonomia, mas os novos limites adquiridos com o acidente fazem com que ela tenha muito presente o que perdeu: a capacidade de andar, a falta da visão, a dificuldade de raciocínio, ou perda auditiva. Não importa a deficiência adquirida, naquele momento, o trauma, a tristeza e a melancolia fazem com que o horizonte seja visto como uma miragem do passado. Por isto é quase impossível sentir-se pleno.
JC - Em relação ao próprio deficiente, qual é sua auto-imagem em relação à afetividade e sexualidade?
Pulhmann - A sexualidade é desenvolvida mesmo neste limbo. Mas o prazer é vivido com altos e baixos. A pessoa sente que está traindo a si mesma, sendo infiel com seus valores e seu modo de ser, antes da aquisição da deficiência. Ela tem a sensação de que não consegue viver com desenvoltura nesta nova condição, onde corpo sobreviveu, mas a identidade se modificou. O corpo se transformou e os sentimentos são desencontrados.
JC – E como sair deste limbo?
Pulhmann - A pessoa com deficiência somente vai encontrar a felicidade amorosa quando atravessar o deserto do real e começar a criar uma nova forma de ser no mundo. Ela se encontrará quando aceitar o presente como dádiva e arriscar viver intensamente por um futuro melhor.
JC – Não raramente, algumas pessoas com deficiência deixam a sexualidade esquecida. Como podem resgatá-la?
Pulhmann – O indivíduo com deficiência precisa renascer para a vida e arriscar trilhar novos caminhos, onde ele possa surpreender-se a cada instante e adquirir a alegria e a espontaneidade criativa. A única forma de se chegar a este estado de consciência é pelo esquecimento: guardar as histórias e abrir mão das memórias. Cada dia é uma oportunidade nova para encontrar alguém especial, algo apaixonante para viver, com muita coragem para enfrentar o desconhecido, que a cada instante se renova diante de nosso olhar.
JC – Que mudanças físicas e comportamentais ocorrem neste estágio?
Pulhmann - Neste estado, a pessoa com deficiência está pronta para viver o prazer possível.
JC – De que forma? Existem alternativas para melhorar o desempenho sexual de pessoas com deficiência?
Pulhmann - Por exemplo, se o indivíduo é um deficiente físico que perdeu parte da sensibilidade genital e da capacidade ejaculatória, ele pode começar a experimentar o corpo procurando novas zonas erógenas, utilizando acessórios sexuais ou buscando relações com altos graus de erotismo, por intermédio, inclusive, das fantasias vivenciadas. Mas o único sexo que vale a pena para pessoas que tem alterações de sensibilidade é o sexo com paixão, o amor vivido durante o enamoramento, a excitação de estar envolvido visceralmente com alguém que suga nossos sonhos e realiza a mágica do prazer.
JC – Cite experiências de deficientes que driblaram as dificuldades para vivenciar relacionamentos afetivos.
Pulhmann - Outro exemplo de pessoas com deficiência que superaram as barreiras do amor são encontrados em pessoas com baixa visão ou mesmo cegas, que participam da celebração da vida por meio da dança, do teatro e da música. É apaixonante estar junto com um cego bem resolvido, um cego que confia em si mesmo e nos seus parceiros a ponto de aceitar os desafios de viver relacionamentos íntimos.
JC – E em relação ao deficientes auditivos, como eles exercitam a sexualidade?
Pulhmann - As pessoas que adquiram uma deficiência auditiva ou que nasceram surdas enfrentam barreiras na comunicação para viver a sexualidade. Na realidade, elas vivem a sexualidade de modo intenso na comunidade surda, porém sabem pouco sobre a sexualidade fora do gueto protegido, pois temem se envolver com o desconhecido. Todos aqueles que não se comunicam pela Língua Brasileira de Sinais (Libras) são vistas com ressalvas. A sexualidade do surdo está sendo bombardeada pela inclusão social.
JC – Por quê?
Pulhmann - Surdos em escolas inclusivas passam a se comunicar de forma mais abrangente, aprendendo sobre relacionamento e sexualidade de um modo novo. Isto acaba exigindo uma constante adaptação dos seus valores à nova realidade: surdos e ouvintes estão construindo um novo jeito de se envolver. Os frutos desta iniciativa podem ser doces e alguns muito amargos, mas esta realidade não tem volta.
JC – Como a família pode ajudar o deficiente físico na questão da sexualidade e afetividade?
Pulhmann - As pessoas com deficiência intelectual estão sempre sujeitas a suas famílias. Se são tratadas de modo natural, aberto e criativo, viverão a sexualidade possível de acordo com seus limites, mas sempre superando as dificuldades. Para as famílias serem pró-ativas com a sexualidade dos filhos deficientes intelectuais, é necessário que tenham superado o trauma complexo de serem pais de um filho nesta condição, ter um papel de pai ou de mãe em que saibam colocar limites sem rejeição, apoiando o filho a enfrentando os relacionamentos mais amplos. São pais inclusivos que sonham para o filho uma vida completa com estudo, trabalho, lazer, amizade, amor e sexo. Casais sexualmente equilibrados conseguem lidar com mais facilidade com os desafios da inclusão afetivo-sexual.
JC – Ainda existe preconceito da sociedade? Por quê?
Pulhmann - Seja por falta de informação ou despreparo, o fato é que uma grande parcela de deficientes físicos ou mentais – 24 milhões dos brasileiros ou 14,5% da população, segundo o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - enfrenta barreiras para vivenciar relacionamentos e a experiência erótica. A sexualidade tem a importância de inserir a pessoa no mundo. De acordo com elas, a experiência erótica não pode ser desvinculada do cotidiano dos portadores de deficiência.