Botucatu - Os doces não fazem mais parte do cardápio diário da aluna Giulia Grave Tiago, 9 anos, aluna da 4.ª série da Escola Municipal “Professor Luiz Carlos Aranha Pacheco”, em Botucatu (100 quilômetros de Bauru). A mudança veio com a implantação do Projeto “Qualidade de Vida - Avaliação e Diagnóstico Nutricional e Complicações Associadas”, desenvolvido pela escola em parceria com a Faculdade de Medicina (FMU) da Unesp.
Na manhã de ontem, como Giulia e mais quatro estudantes passaram por exames de coleta de sangue. O procedimento integra as ações para diagnosticar doenças e melhorar a qualidade de vida dos alunos dentro e fora da escola.
Com aproximadamente dez quilos acima do peso, Giulia assume que havia exagero no seu cardápio. “Eu já emagreci quatro quilos depois que comecei a receber orientação aqui na escola. Antes, eu comia doce o dia todo. Agora, não como mais. Além de engordar, o doce estava causando cáries em meus dentes. Estou feliz e ainda quero emagrecer mais cinco quilos”, afirma a aluna.
Fatores como excesso de peso, exageros à mesa e sedentarismo na fase infantil, têm preocupado profissionais da área de saúde. Pensando nisso, a médica pediatra Gleice Gabriel, pós-graduanda da FMU, em parceria com a nutricionista Ana Elisa Rinaldi, e o biomédico Fernando Moreto, estão estudando o comportamento alimentar de pré-adolescentes do ensino fundamental de três escolas de Botucatu. O trabalho aplica métodos de prevenção para que as crianças não se tornem adultos obesos.
“A obesidade vem apontando sinais alarmantes, com probabilidade de problemas agravantes no futuro. A obesidade hoje é uma questão de saúde pública. Nos últimos meses de trabalho na escola, verificamos que 30% dos alunos estão acima do peso, resultado do alto consumo de alimentos gordurosos e sedentarismo. Dos alunos avaliados, muitos passam a maior parte do dia em frente à televisão”, explica a pediatra.
O comportamento de risco aponta alterações nos exames feitos pelos profissionais. Em coletas de sangue realizadas há casos de níveis elevados de colesterol, triglicéris e pressão alta. “Estes fatores apontam uma pré-hipertensão o que pode levar a complicações na fase adulta. Verificamos também que os pais dessas crianças estão acima do peso e são sedentários em sua maioria. É uma questão que deve ser trabalhada em família”, diz Gleice.
No projeto preventivo, pais e alunos são convidados a participar de palestras com especialistas da área de saúde. Para os professores, cabe a missão de dar continuidade ao trabalho em sala de aula, com aplicação de textos relacionados ao tema e pesquisas.
Exames
O trabalho nutricional tem todo um processo de avaliação. Antes das orientações nutricionais, os alunos fazem exame de sangue e passam por uma consulta pediátrica. Nos casos de excesso de peso, as crianças são encaminhadas ao Hospital das Clínicas da Unesp para exames de ultra-som e tomografia. “Estes procedimentos são necessários para avaliar alguns órgãos que podem ser afetados com o excesso de peso, como o fígado”, detalha a pediatra.
Resultados
A iniciativa da equipe da Faculdade de Medicina da Unesp já vem apresentando resultados positivos. Segundo a diretora da Escola Municipal “Professor Luiz Carlos Aranha Pacheco”, Lucilene Alves Cota, o trabalho tem melhorado o rendimento escolar e a auto-estima dos estudantes.
“Com a ajuda dos profissionais na escola e dos pais em casa, as crianças estão comendo com mais qualidade. Isto reflete no aprendizado, pois, com um corpo saudável, o aluno pensa melhor e fica mais ativo para as práticas esportivas. O peso ideal resgata a auto-estima e as próprias crianças passam a se valorizar mais”, afirma a diretora.
Para o aluno Alexandre Nunes Fagundes Costa, 9 anos, o resultado veio à mesa. “Antes, eu comia três pratos de macarrão. Hoje me satisfaço com apenas um e, além disso, como verduras que antes não comia. Aprendi que tenho que me controlar hoje para ser um adulto saudável”, finaliza Alexandre.
O projeto nutricional conta com a parceria do Departamento de Saúde Pública (CeMENutri), Departamento Clínica Médica e Departamento Pediatria e tem como orientadores os professores Roberto Carlos Burini e Antonio Carlos Caramori.
Além da “Luiz Pacheco”, o trabalho vem sendo desenvolvido na escola Liceu Anglo e Projeto Social “Joanna de Angelis”, atendendo no total 900 crianças, com idade entre 6 a 14 anos.