“Antes do meu filho ser preso, a gente era convidada para todas as festas de aniversário aqui no bairro. Depois que ele foi para a cadeia, nunca mais fomos convidados.” O relato da dona de casa Fátima (nome fictício), 45 anos, que tem um filho de 23 anos preso, retrata bem a rotina que as famílias passam a viver quando alguém de casa vai para a prisão. Preconceito, discriminação, vergonha e desemprego são algumas das palavras facilmente encontradas no vocabulário dessas famílias. Muitas acabam se fechando dentro da própria casa com vergonha de encarar os vizinhos.
A reclusão voluntária é uma prática comum e dolorida para essas famílias. “Depois que meus filhos foram presos, eu evito ir ao mercado porque as pessoas ficam comentando. Tem gente que ri nas suas costas. Tudo isso é muito chato”, reclama Regina (nome fictício), viúva aposentada de 57 anos que tem dois filhos presos.
Ela conta que no começo não saía nem no portão de casa com vergonha de encontrar algum vizinho ou que alguém perguntasse de seus filhos. “Até hoje, tomo antidepressivo. O desgaste emocional é muito grande”, revela Regina, que convive há quatro anos com essa realidade.
Outra reclamação constante das famílias que têm alguém detido no sistema penitenciário é a desconfiança generalizada. Algumas pessoas relatam que, quando vão ao mercado e o dono do estabelecimento sabe que elas são mulheres de presos, os passos delas são acompanhados de perto. “Sempre tem alguém nos vigiando só para ver se não vamos roubar nada”, diz Viviane (nome fictício), 27 anos, que tem o marido preso na Penitenciária de Balbinos.
Ela diz estar disposta a mudar de Bauru para uma cidade onde ninguém a conheça. “Se o patrão apenas desconfiar que você tem algum preso na família, ele te demite na hora. E você não consegue emprego em nenhum outro lugar”, conta Elaine, que trabalha como empregada doméstica. Ou melhor, trabalhava até o marido ser preso.
A diarista Odete (nome fictício) trabalhava três vezes por semana até seu filho ser preso acusado de homicídio. Depois que a notícia chegou aos ouvidos de todo o bairro, ela teve de procurar emprego em casas mais distantes. Ela não sabe como, mas a patroa da última casa em que trabalhou também ficou sabendo que ela tem um filho preso e deu um jeito de mandá-la embora. “Ela (patroa) veio com mil e uma desculpas para me mandar embora, mas eu sei que foi por isso. Porque ela mudou o comportamento quando eu confirmei que meu filho é acusado de homicídio e que ele está preso”, comenta a diarista, que atualmente está desempregada.
Na maioria dos casos, as mães dizem que seus filhos e maridos sentem arrependimento pelo que fizeram. Outras alegam que eles são inocentes. Mas qualquer que seja o caso, é comum, principalmente quando se trata dos filhos, elas dizerem que eles são vítimas. Seja do preconceito da polícia, das más companhias ou da situação social precária.
Nenhuma das mães ou esposas ouvidas pela reportagem admite que seus filhos ou maridos são bandidos. Por um motivo ou por outro, são apenas vítimas das circunstâncias, na opinião delas.