No final do século 19, as coisas andavam para lá de agitadas no Império Britânico. Inúmeras revoltas surgiram nas possessões africanas, e a nação colonizadora foi obrigada a tomar medidas enérgicas contra os nativos. Utilizando técnicas para combate na selva, um militar inglês chamado Robert Stephenson Smyth Baden-Powell conseguiu conter os ânimos dos zulus rebelados, impedindo que a região sul do continente se tornasse independente.
Aclamado como herói em sua época, Baden-Powell poderia ter caído no esquecimento, décadas depois. Poderia ser definido, hoje, como um mero carrasco colonizador ou um opressor dos povos dominados. Uma mudança de rumo em sua vida fez, porém, com que ele passasse a ser visto de maneira diferente por pessoas do mundo todo.
Quando percebeu que suas técnicas de combate estavam servindo de inspiração para milhares de jovens escoteiros em diferentes países, Baden-Powell descobriu um novo sentido para sua vida: resolveu colocar seus dons militares a serviço da educação de crianças e adolescentes.
Escreveu livros, promoveu encontros de “boys scouts”, até ser aclamado, em 1920, o “escoteiro chefe mundial”. B-P, como costumava ser chamado, não queria mais saber de guerra. Seus ensinamentos passaram a se basear em valores de fundo mais humanitário, como amizade, companheirismo, solidariedade e respeito ao próximo.
Hoje, passados 100 anos desde o surgimento do movimento, esses ideais ainda podem ser notados no comportamento dos escoteiros. Os membros de um grupo costumam ser amigos inseparáveis.
Cleber Ribeiro Ramos Filho, 19 anos, Vivian da Silva Lopes, 20 anos, e Luan Mateus Hanna Chimbu, 19, se conhecem há pelo menos 12 anos, desde que os três começaram a freqüentar do grupo Guia Lopes. Eles passaram por todos os estágios do desenvolvimento escoteiro e atualmente são pioneiros (fase destinada a jovens de 19 a 21 anos).
Além de participarem das reuniões de seu ramo, os três ainda colaboram nas atividades dos menores (lobos, escoteiros e seniores). Isso significa dizer que ficam o sábado inteiro na sede do Guia Lopes. Alguns poderiam considerar maçante esse trabalho extra, mas, no caso deles, PHDs em escotismo, trata-se de uma prazer: afinal, eles precisam estar sempre alertas para fazer o bem ao próximo.
“No dia-a-dia, a gente realmente ajuda algumas velhinhas a atravessarem a rua”, brinca Cleber, que cursa atualmente o 3.º ano do ensino médio - prova de que até mesmo os escoteiros mais dedicados podem ir mal na escola.
“Na verdade, somos pessoas comuns”, corrige ele. “A única diferença, na minha opinião, é que pela formação que recebemos somos jovens mais conscientes de nossas responsabilidades”, completa.
Além dos três amigos, a turma de amigos conta com uma quarta integrante: a estudante Patrícia Silva do Nascimento, 18 anos. Ela entrou para o movimento por intermédio de Luan, há pouco mais de dois anos. “Estudávamos juntos e ele sempre comentava que era escoteiro. Até aquela época, eu achava que era coisa de filme. Resolvi, então, ir a uma reunião e gostei bastante”, relata.
Enquanto concedia entrevista, Patrícia era constantemente interrompida por brincadeiras vindas, principalmente, da parte de Luan. Brinco e piercing na orelha, óculos de sol e uma camiseta cor-de-rosa, o rapaz aparenta ser o avesso do bom escoteiro. Falante e risonho, em nada ele lembra o ideal de disciplina sonhado pelas mentes conservadoras.
Mas isso é só aparência. “Quando digo que sou escoteiro, as pessoas até estranham, pois dizem que não combina com minha imagem”, admite ele. Os amigos, porém, fazem questão de confirmar a dedicação do rapaz em relação ao movimento. “Brinco e piercing não mudam caráter de ninguém. Aqui somos todos irmãos, independente do jeito de cada um”, diz Vivian.