Bairros

Ponte abriga ‘república’ de sem-teto

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 3 min

Quem nunca reclamou de barriga cheia, sem refletir a realidade à sua volta? Quatro pessoas que moram debaixo da ponte em Bauru teriam muito a lamentar da vida, mas preferem se apegar a pequenos gestos (talvez inconscientes), enaltecer a solidariedade, a amizade e cultivar a esperança de que o futuro será melhor que o presente.

Motoristas que trafegam pela avenida Nuno de Assis, sentido Centro-bairro, dificilmente se dão conta, mas debaixo da ponte sobre o rio Bauru, nas imediações de acesso para a rodovia Marechal Rondon, mora uma “família” que se uniu para “vencer” as amarguras e adversidades.

José Antônio Pereira, 33 anos, é tratorista, mas mora no endereço há dois anos.

Do alto de sua experiência, conta que o lugar é habitado há muito tempo, por muitas pessoas que ficam no local por pouco tempo, mas não se esquece dos amigos. “Briguei com a mulher, saí de casa, conheci um rapaz que morava com os três irmãos aqui embaixo e eles resolveram me ajudar. Eu fiquei e eles foram embora”, conta. “Mas sempre vêm me visitar”, completa.

Pereira tem dois filhos em Bauru e não nega que as lembranças da vida com a antiga família são difíceis de serem esquecidas. “Sinto saudade, mas hoje ela já mora com outro”, se lamenta, fazendo referência à ex-mulher.

Anderson Luis, 27 anos, mora há um ano no “mocó” (como chamam o local) e tem história semelhante ao colega mais antigo de casa. “Tenho mãe, pai, esposa e filho, mas briguei com ela e, para não preocupar e dar trabalho aos meus pais, que são de idade, resolvi vir para a rua e tentar a vida”, conta o rapaz, que é eletricista de carros. “Dia sim, dia não, os visito”, completa.

Grávida

Ariolene Maria de Jesus é a mais nova do grupo: tem 18 anos e mora com os colegas há três meses. Grávida de dois meses, ela conta que foi ao local com uma amiga para conhecer e acabou se apaixonando por Luis. “Eu estava doente e ele cuidou de mim. A gente se conheceu, começou a se gostar e eu resolvi ficar”, revela.

O quarto morador não estava em casa no momento em que a reportagem compareceu ao local, ontem. Ele estava catando latinhas, como fazem todos os outros três moradores para levantar dinheiro e comprar comida para eles e para o cão de guarda, Rambo, um vira-lata.

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Esperança de um futuro melhor

Cada um dos amigos que dividem o mocó sob a ponte do rio Bauru entrevistados pelo JC tem um sonho. Anderson Luis quer ter sua própria oficina elétrica. José Pereira, um emprego de tratorista no sítio. Ariolene, a oportunidade de dar um futuro bom para o filho.

Para tentar melhorar a condição de vida da “família”, Luis pretende levar todos para Araraquara. “Já andei conversando e fiquei sabendo que lá tem mais recurso do que aqui. Estamos juntando dinheiro para a passagem”, revela.

“Mas vamos os três, porque ele (Pereira) já me ajudou bastante, é nosso braço-direito e não podemos esquecer dele”, completa. “Aqui (em Bauru) está ruim de serviço. A gente bate em todo lugar e sempre falam que está fraco. Vamos esquecer e tentar uma nova vida por lá (Araraquara)”, planeja Luis.

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