Tribuna do Leitor

Animais de tração


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Discutir com a sra. Iris Linhares é difícil porque seu pensamento parte de um princípio equivocado, preconceituoso, injusto e ultrapassado, o de que os animais estão no mundo para nos servir e serem explorados. A sra. está na contramão do pensamento libertador. Hoje, muitas correntes científicas e filosóficas são unânimes em afirmar que a dor que infligimos aos animais não pode ser eticamente justificada.

Teríamos que respeitar as características de vida que lhes são inerentes, apenas para não entrar na questão mais complexa, a de que formamos um sistema de componentes inseparáveis, interligados e em constante movimento, e que, neste planeta, todos os elementos e seres vivos fazem parte de um mecanismo de interdependência e sustentação da natureza. Não fosse assim, nem pensariam em fazer transplante de coração de porcos para humanos, não é mesmo?

Entretanto, com o poder absoluto que nos atribuímos, sentimo-nos, desde o circo romano, e mesmo antes disso, donos de tudo e separados dos elementos naturais, dos bichos todos. E somos bicho, dona Iris, queira ou não, a sra. é bicho também, só que somos de uma outra espécie, creio que a pior de todas no quesito “maldade e destruição”. Quanto aos cavalos, burros e jumentos, não teriam que arcar o ônus de carregar, em trabalho penoso e sofrido, o entulho produzido por nossa fútil, destrutiva e consumista vida. O mesmo vale para os carrinheiros, pois este serviço libertaria os animais, mas o homem não.

Os vereadores que ficam em cima do muro ou os que defendem a atividade de carroceiro, especialmente o sr. Batata, pensam que nos iludem de que estão ajudando o “social”. Ao contrário, este discurso fácil e despreparado, de que o cavalo serve como ganha-pão e que veículos de tração animal têm que ser mantidos porque fazem parte da tradição rural, vai ajudar a perpetuar a condição de miséria do carroceiro, dos que moram em casebres, com muitos filhos, na periferia, e maltratam o animal. Aliás, não basta ser tradição para que seja válida. A história da humanidade comprova que muitas tradições foram e devem ser combatidas, porque alicerçadas em preconceitos, ignorância, humilhações, sofrimento, morte e mutilações.

Se o cavalo de tração serve como subsistência, segundo o discurso corrente, então quem dele se utiliza ganha dinheiro, não é? Portanto, embora seja pouco, têm que ter deveres, como os demais trabalhadores brasileiros. Os que acham que eles não podem pagar nada, nem serem responsabilizados por acidentes e maus tratos, admitem a penúria e a condição de não-cidadão destas pessoas. Como esses cavalos custam pouco, muitos acham mais barato comprá-los, usá-los e jogá-los fora quando doentes e extenuados, do que dar-lhes tratamento adequado.

Como a sessão foi gravada, sugiro aos vereadores e interessados que revejam o texto-manifesto da advogada Vânia Rall Daró, apresentado na audiência pública (20/4/07), em que se discutiu o projeto para regulamentação dos veículos de tração animal. O texto reflete o pensamento avançado, equilibrado, libertador e generoso da autora. Pudera todos partissem desses princípios como base para a decisão do problema, sem nos esquecermos da efetiva contribuição de Rodrigo Agostinho, e outros defensores da aprovação, como Luiz Ricardo P. B. Cortez, ONGs, entidades públicas e policiais.

Quem apóia a atividade de carroceiro com sua precariedade atual, e não pretende aprovar o projeto, subtrai do animal o direito de atenuar seu sofrimento, e quer traçar o caminho mais fácil, qual seja, o do assistencialismo e da manutenção da pobreza, que é o que sempre se fez nas esferas do poder.

Pedro de Souza Meira - RG 27.849.708-1

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