Cultura

Prêmio TIM evidencia independentes

Da Redação Com Agência Estado
| Tempo de leitura: 5 min

Os indicados que disputam o 5.º Prêmio TIM de Música, que será realizado hoje à noite, no Teatro Municipal do Rio, evidenciaram o crescimento da produção independente no Brasil. De um total de 668 CDs e 119 DVDs inscritos, menos de um terço veio das grandes gravadoras. Deles, 102 foram indicados em 16 categorias, a mais ampla radiografia do mercado em 2006.

Para José Maurício Machline, idealizador e coordenador do prêmio, “grandes artistas já não vendem um milhão, mas muitos têm agora a oportunidade de lançar seus trabalhos porque o custo de produção de discos ficou mais acessível”, disse, na época da divulgação dos indicados. Ao lado da qualidade técnica, também cresceu o nível dos instrumentistas, que têm mais recursos para mostrar seu trabalho.

A cerimônia homenageia Zé Ketti e terá show em que Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Mônica Salmaso, Zé Renato e Zélia Duncan visitam o repertório do compositor de “Máscara Negra”.

Maria Bethânia encabeça a lista de indicações este ano, concorrendo em sete categorias. Ela já virou presença certa em todas as listas desta premiação. Nas cinco edições do Prêmio TIM de Música, realizadas até hoje, Bethânia é a líder no número de indicações, totalizando 21, e a recordista de prêmios, seis ao todo (ao lado de Zeca Pagodinho). A cantora sagrou-se vitoriosa em três categorias em 2004. Rio é o Estado com o maior número de indicações este ano: são 53 ao todo, seguido por São Paulo, com 20. A Bahia é o destaque do Nordeste com 17 indicações.

Zé Ketti

O compositor Zé Ketti (1921-1999) é o cara do momento. Coincidência ou não, o DVD com sua entrevista para o “Ensaio”, na TV Cultura, em 1991, chegou às lojas recentemente, e hoje ele recebe a homenagem que o Prêmio TIM de Música lhe prestará e sua filha, Geisa Ketti, anuncia um disco com inéditas cantadas por Marcelus Villaça. Até o fim do ano, saem em DVD os filmes “Rio Zona Norte”e “Rio 40 Graus”, de Nelson Pereira dos Santos, ambos com participação fundamental de Zé Ketti.

Não que o compositor de “Máscara Negra” estivesse no ostracismo ou não tenha recebido flores em vida. Pelo contrário, suas músicas estão no repertório de cantores iniciantes ou consagrados (como Zé Renato, que lhe dedicou um disco) e ele recebeu o Prêmio Shell de música em 1998. Mas, diz Geisa, “ele é prestigiado, mas não reconhecido à altura do talento e da importância. Tanto que não encontramos distribuidora para seu disco de inéditas”.

Ele é fundamental na música brasileira por suas mais de 300 músicas, alguns poemas e melodias à espera de letra e por ter sido agitador cultural e batalhador da dignidade da profissão de sambista, quando ninguém pensava nisso. O cineasta Nelson Pereira dos Santos, que o conheceu no início dos anos 50, lembra. “Fomos apresentados no Vermelhinho, bar da Cinelândia, pelo jornalista Vargas Júnior, que era seu parceiro. Ali, pela primeira vez, ouvi “A Voz do Morro” (“Eu sou o samba/A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor...”), ainda inédita”, conta Nelson.

“Ele me ciceroneou nas rodas de samba de Madureira e adjacências, me apresentou a Natal da Portela, a Candeia e até virou personagem de ‘Rio Zona Norte’. Mas o filme é muito triste e ele era só alegria.”

“A Voz do Morro” virou hit em 1955, quando Nelson lançou seu primeiro longa, “Rio 40 Graus”, obra inaugural do Cinema Novo, de 1955. Foi um escândalo porque a música sonorizava um vôo sobre a cidade e o verso “eu sou o rei dos terreiros” coincidia com a imagem no rosto do Cristo Redentor. “Foi proposital, para a imagem rimar com a música. A Igreja não ligou e o frei Secundino, nosso amigo, até concordou que Cristo era mesmo rei dos terreiros cariocas. Quem não gostou foi o chefe de polícia que tentou censurar”, lembra Nelson.

“Mas nada disso atrapalhou nossa amizade. Fomos parceiros até sua morte e batizei um de seus filhos. Por isso, intitulei de “Meu Cumpadre Zé Ketti” o curta póstumo sobre ele, que deve entrar como entra do DVD “Rio Zona Norte”. Além de grande amigo, ele era ótima companhia.”

Zé Ketti era uma figuraça, como evidencia o DVD “Ensaio” Descontraído, ele fala da infância entre Inhaúma e Madureira, das festas que o pai, o flautista e pianista João Dionísio Santana, promovia em casa. Generoso, começa cantando “Avenida Iluminada”, marcha dos carnavais de salão dos anos 60 e 70, de Newton Teixeira e Brasinha. Só depois vem “Máscara Negra”, seguida de “Quem me Vê Sorrindo”, da Carlos Cachaça e Cartola, seus amigos, embora fundadores da Mangueira, maior rival de sua querida Portela. Ele canta sucessos como “Acender as Velas”, “Diz Que Fui por aí”e “Opinião”, que Nara Leão gravou em seus primeiros elepês e que fizeram, pela primeira vez, a ligação do morro com o asfalto.

Não que ele fosse desconhecido antes disso. Zé Ketti organizou grupos com Elton Medeiros (seu parceiro em “Mascarada”), Nelson Sargento e outros e, embora boêmio e festeiro, levava a sério a luta pelo direito do compositor e liderava seus companheiros menos articulados. No DVD, ele conta como esse prestígio lhe salvou a vida e deu origem ao belo e pouco conhecido samba “Menino do Morro”, crônica amorosa que é melhor não antecipar. Os grandes sucessos como “Malvadeza Durão” e “Nega Dina” estão lá, ao lado de sambas preciosos e quase inéditos como o sincopado “Tio Sam no Samba” ou os quatro para a Portela, que encerram o programa. Tudo com o acompanhamento enxuto de cavaquinho, violão e percussão.

Os sucessos estarão no show do Prêmio TIM de Música, com arranjos de Wagner Tiso e Rildo Hora e cantados por Lenine, Roberta Sá, Paulinho da Viola, Emílio Santiago, Zé Renato, Paulinho da Viola e Zélia Duncan, entre outros.

Comentários

Comentários