Cultura

Crônica: O outro fausto

Lucius de Mello - Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Ao elogiar a atividade literária, o cronista João do Rio escrevia em 1908: “Hoje o escriptor trabalha para o editor e não manda vender como José de Alencar e Manuel de Macedo por um preto de balaio no braço, as suas obras de porta em porta, como melancias e tangerinas”.

No tempo do Império eram os negros que vendiam romances sobre os tabuleiros, misturados às frutas, ao feijão, aos quitutes.... Mas como encontrar leitores numa época em que apenas 15,7% da população total do Brasil sabiam ler e escrever, segundo dados de recenseamento de 1890.

Com certeza, menor ainda era o número de leitores de literatura, o que fica indicado pelas tiragens. Os livros saíam em edições de mil exemplares, e apenas títulos muito bem-sucedidos chegavam à segunda edição, que podia demorar 10, 20 ou 30 anos, como nos conta Hélio de Seixas Guimarães, em “O Romance Machadiano e o Público de Literatura no Século 19” – editora Edusp. Hélio escreve que no Brasil a frustração dos escritores por não terem leitores, produziu declarações dramáticas ao longo de todo o século 19. Frustração que transpira dos textos de José de Alencar no fim de sua carreira e também será registrada por Machado de Assis na década de 1860 quando, em carta a Alencar, atribui o descaso pela literatura à “conspiração da indiferença”.

O escritor maranhense Aluísio de Azevedo também desabafava entre os anos de 1880 e 1890: “E é isto é vida literária! Futuro! Que futuro pode ter uma obra escrita na areia da praia, como os cânticos de Anchieta? Tivesse eu a certeza de que uma só de minhas páginas viveria e ficaria contente...Mas não se vive em túmulo e o português...Não vale a pena. Anchieta ao menos tinha um leitor – o mar. E eu? Escrever para quê ? para quem? Não temos público. Uma edição de dois mil exemplares leva anos para esgotar-se e o nosso pensamento, por mais original e ousado que seja,jamais se livrará no espaço amplo: voeja entre as grades desta gaiola estreita,que é a celebrada língua dos nossos maiores”.

Pois é, meu caro Aluísio... Mais de um século se passou e a grande maioria dos escritores brasileiros continua se fazendo a mesma pergunta: escrever para quem? Para quê? Hoje o País é outro, o número de analfabetos diminuiu, mas o gosto pela leitura... Mas porque lê-se tão poucos livros no Brasil? Talvez porque faltem pais leitores, irmãos e primos leitores, avós leitores, bisavós leitores, famílias de leitores, professores leitores, escolas leitoras... É preciso multiplicar o exemplo. Mais que instruir, educação é dar exemplo. Se a criança chegasse em casa e visse o pai sentado no sofá lendo um livro não tenho dúvida que ela iria se interessar.

Ah, se a televisão não tivesse medo do livro... Se tivesse dado a ele o mesmo tempo que deu ao futebol e à telenovela, teríamos hoje uma país de maníacos por bola e também por leitura, claro. Se a lavagem cerebral valeu para levar a massa aos estádios, por que não valeria para lotar as bibliotecas?

Se a maior emissora de televisão do Brasil, desde a década de 60 tivesse dado o exemplo, o número de leitores brasileiros seria bem maior, não tenho dúvida nenhuma disso. Não adianta incentivar a ler às seis da manhã, quando todos estão correndo para o trabalho. Era e ainda é preciso falar de livros no horário nobre.

Se os programas de auditório mostrassem a vida de escritores famosos nos arquivos confidenciais, contassem a história deles assim como contam a dos Big Brothers e revelassem ao grande público da tevê aberta, as obras e os nomes que marcaram a nossa literatura, o número de livrarias brasileiras seria outro. Eu mesmo, por exemplo, que nasci em 1964, cresci sem nunca ter visto Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, e tantos outros autores de contos e romances em programas de televisão nas tardes de domingo.

Se lançamentos de livros fossem tratados pelos apresentadores como os lançamentos de discos, dos hits sertanejos e ganhassem o mesmo espaço na televisão, imaginem... Façam as contas... de 1965 até agora. É quase meio século de bons exemplos literários que deixaram de ser dados. E hoje, infelizmente, ainda são poucos e raros os brasileiros que já ouviram falar ou que tiveram o privilégio de conhecer o outro Fausto...

Lucius de Mello Escritor, jornalista e colaborador do Ju Machado - Escritório de Arte

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