A exuberância das matas brasileira deixou Pero Vaz de Caminha extasiado. Na famosa carta enviada ao rei Dom Manuel ele rendeu inúmeros elogios à fertilidade das terras recém-descobertas. Embora mais de 500 anos tenham se passado desde então, as palavras do escrivão português permanecem válidas.
O Jardim Manchester (zona leste de Bauru) é prova viva de que Caminha tinha razão ao elogiar a qualidade do solo brasileiro. Ali em se plantando tudo dá - inclusive nas ruas. Como nenhuma delas é pavimentada, a vegetação fica livre para tomar conta de tudo.
Desprovidas de guias e sarjetas, as vias estão sendo invadidas pelo matagal. A “onda verde” é tão poderosa que uma calçada da rua Felício Lanzara acabou sendo transformada em plantação de melancias por uma moradora.
As ramas foram semeadas por Cláudia dos Santos Tavares, que vive há dez anos no lugar. Ela é presidente da associação de moradores do Jardim Manchester. “Faz tempo que a gente vem insistindo para que eles tragam asfalto para bairro. A gente pede, pede, pede de novo, só que eles nunca resolvem”, reclama.
O canteiro de Cláudia foi cultivado há alguns meses e a calçada se mostrou um terreno bastante fértil, tanto que diversos frutos já podem ser encontrados em meio às ramas viçosas. “Daqui algumas semanas, vou colher umas oito melancias”, calcula a presidente.
Tanta confiança tem sua razão de ser. Devido ao mato que invade as ruas, poucos veículos se arriscam a trafegar pelo Manchester. Mesmo que as ramas “resolvam” se enveredar pelo meio da via, é quase impossível que algo venha a danificar as melancias de Cláudia.
A não ser, é claro, que algum dos animais que rondam a vizinhança decidam transformar as frutas em alimento. “Tem um veadinho que passa todos os dias aqui perto de casa, sempre na parte da manhã”, afirma Cláudia.
Até o presente momento, porém, o animal não demonstrou interesse em relação às suculentas frutas (talvez pelo fato delas ainda estarem verdes). Em todo caso, Cláudia está certa de que nada a impedirá de saborear as melancias. “Faz tempo que estão prometendo asfaltar as ruas e, até agora, nada. Melhor deixarem como está por mais um tempo, pelo menos até que eu possa fazer minha colheita”, brinca ela.
Abandono
Casos como esse ajudam a ilustrar o descaso a que estão submetidos moradores dos bairros periféricos de Bauru. O jardim Manchester foi oficializado no final da década de 1970, ou seja, há mais de 20 anos, e, desde então, quase não recebeu serviços de infra-estrutura.
Não é por acaso que, nos dias atuais, as ruas do bairro se encontram em estado de perdição. Em outros pontos da cidade a ausência de pavimentação nas vias também se faz sentir de maneira dramática.
No Parque Roosevelt (zona oeste de Bauru), as ruas chegam a sumir em meio aos buracos. Na época das chuvas, a enxurrada costuma abrir verdadeiras crateras no solo, deixando as passagens intransitáveis. “É tanta lama que a gente é obrigado a vestir sacolas plásticas nos pés para proteger os sapatos”, afirma o pedreiro José Ricardo Albertini, 24 anos, que mora no local desde 1988.
A exemplo do que ocorre no Manchester, ele e outros moradores do Parque Roosevelt sofrem diariamente com falta de pavimentação nas ruas. Não são os únicos. Há quase quatro décadas a população do Parque Santa Edwirges, zona noroeste da cidade, vem aguardando ansiosa a chegada do asfalto.
Embora a pavimentação já seja um realidade em diversas partes do bairro, a maioria das ruas do Santa Edwirges ainda é de terra - inclusive algumas bastante utilizadas pelos moradores. É o caso, por exemplo, de duas quadras esburacadas da alameda Licurgo. “O interessante é que esta rua dá acesso ao núcleo de saúde e mesmo assim está abandonada. Imagina se ela levasse a lugar nenhum?”, questiona a artesã Tereza Inês da Silva, 46 anos, que vive no bairro desde 2001.
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Sacolas são solução para os dias de chuva
Apesar da poeira que invade as casas e os pulmões das pessoas, o fim da época das chuvas representa um alívio para os bauruenses que moram em ruas de terra. “É melhor assim do que quando se forma aquele lamaçal na vizinhança”, diz Fernando Antônio Vieira de Barros, que é líder comunitário na Pousada da Esperança.
Quando chove, os moradores das ruas sem asfalto não têm como exercer o direito de ir e vir. A crateras formadas pela enxurrada tornam as vias intransitáveis para os veículos. Para piorar, as pessoas ainda são obrigadas a enfrentar verdadeiros pântanos quando saem de casa. “A gente tem de vestir sacolas de plástico nos pés para não se sujar”, afirma a dona de casa Maria Lúcia de Souza Lucas, 40 anos, moradora do Jardim Andorfato (zona oeste de Bauru).
Neuza Maria Gonçalves, 48 anos, teve uma experiência nada agradável com as ruas de terra do Parque Santa Edwirges (região noroeste de Bauru). Ela precisava ir ao núcleo de saúde do bairro e por isso resolveu se aventurar entre as imensas valas da alameda Licurgo. Neuza procurava pisar nas moitas de grama, evitando dessa forma que os pés se sujassem na lama. Quando estava próxima ao destino, porém, ela se descuidou. “Pensei que o terreno era firme, mas estava enganada. Afundei a perna no barro, até a altura da canela”, garante.
A trégua das chuvas permitiu que a lama secasse nas ruas da periferia, só que os buracos permaneceram como armadilhas para motoristas e pedestres. “De vez em quando a gente vê algum caminhão tombando ou alguém caindo de cima da moto”, afirma o aposentado José Moreira, 60 anos, que vive no Jardim Andorfato. O término do período das chuvas também não deu conta de amenizar o problema dos buracos que tanto atormenta os moradores do bairro Jardim Tangarás (zona leste de Bauru).
“As coisas estão na mesma: antes era lama e buraco; agora é vala e poeira. É sempre assim. Essa situação só vai mudar no dia em que os políticos cumprirem a promessa de trazer asfalto para o bairro. Mas acho que ainda demora uns 20 anos para que isso aconteça”, pondera Zaqueu Vieira da Silva, presidente da associação de moradores do bairro. (RF)
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Moradores duvidam que asfalto venha
Décadas de abandono fizeram com que os moradores da periferia perdessem a esperança no poder público. No caso das ruas de terra, poucos acreditam que elas venham a receber asfalto algum dia.
Diva Dias, 68 anos, é presidente da associação dos moradores do Jardim Solange. Situado na região sudoeste de Bauru (ao lado do Recinto Melo Moares), o bairro não possui uma rua asfaltada sequer.
No começo do ano, as vias que cruzam o lugar estavam completamente esburacadas em decorrência da ação das chuvas. Algumas semanas atrás, porém, a prefeitura realizou serviços de terraplanagem no local. “Melhorou um pouco. Pelo menos agora não corremos o risco de cair com o carro na cratera”, diz a presidente.
Não que Dias esteja satisfeita com a situação. Afinal, ela sabe que as crateras voltarão ao Jardim Solange, tão logo as chuvas retornarem. Tem sido assim por décadas. “Em época de eleição, parece que os políticos são capazes de carregar o mundo nas costas. Prometem o possível e impossível. Já perdi as contas de quantas vezes já ouvi candidatos garantindo que iriam trazer asfalto para o bairro”, afirma.
Dias afirma ter perdido a fé na palavra dos políticos. Fernando Antônio Vieira de Barros, 42 anos, também anda descrente em relação ao poder público. “A prefeitura gosta é de cuidar dos bairros ricos. Nós da periferia ficamos em segundo plano”, reclama ele, que é segurança e também preside uma associação comunitária na Pousada da Esperança.
O bairro da zona norte é um dos que mais sofre com a falta de pavimentação nas ruas. “Aqui é assim: quando chove, vira pântano; quando seca, a poeira é tanta que fica parecendo o Deserto do Saara (localizado no norte do continente africano)”, brinca Barros.
Segundo ele, doenças respiratórias são comuns entre os moradores do bairro. “Volta e meia ouço alguém reclamando que o filho está com gripe ou alergia”, garante ele. (RF)