O problema da geração de energia no Brasil está ficando mais complicado a cada dia que passa. Não se trata mais de especular sobre a probabilidade de um novo “apagão” nos próximos três ou quatro anos, à semelhança do que “pegou de surpresa” a administração tucana em 2001. Não há essa expectativa no horizonte do atual governo, mas está se esgotando a possibilidade de o Brasil continuar se beneficiando das vantagens comparativas que a atual estrutura da matriz energética proporciona. A matriz está sendo destruída bem debaixo de nossos narizes e a percepção desse fato bloqueará a recuperação do dinamismo da economia brasileira, antes que o PAC comece a deslanchar de verdade. É preciso que o presidente Lula se conscientize que será tão ou mais responsável quanto seu antecessor pela redução do crescimento brasileiro até o final dessa década, presidindo um feito inédito em toda a história da economia brasileira, qual seja o fecho de três décadas de desenvolvimento inferior ao crescimento da economia mundial.
Os empresários brasileiros só muito recentemente passaram a acreditar que há condições para que a economia brasileira entre num novo ciclo de desenvolvimento robusto e sustentado. Têm dúvidas porém se haverá garantia de fornecimento de energia a preços que pelo menos suavizem as enormes desvantagens que os impostos, os juros e até mesmo o câmbio (eventualmente) impõem ao setor produtivo. Esperam do governo que ponha ordem na casa e mostre claramente que não vai aceitar passivamente a substituição da oferta de energia limpa e barata das hidrelétricas pela sujeira das termoelétricas ou o maior custo e complicações das instalações nucleares.
A discussão com os ambientalistas é interminável porque eles abandonaram a racionalidade da argumentação técnica e se deixaram dominar pelo ranço ideológico e pelo fascínio de aparecerem sob os holofotes da mídia alinhados com figuras caricatas que mal escondem as fontes externas de seus patrocínios.
Às vezes vivemos no Brasil situações que agridem o senso comum (até mesmo o incomum, como disse Nelson Rodrigues): fomos o único país do mundo a criar um imenso organismo estatal para cuidar da conservação do meio ambiente que em pouco tempo se desvirtuou a ponto de hoje promover a destruição ambiental. Ali se refugiaram a vanguarda do atraso nacional e a nata dos predadores da natureza. Sua resistência à construção de hidrelétricas, fornecedoras de energia limpa, está levando o país a caminhar na direção da termoeletricidade, altamente poluidora. Além de recorrer a esta alternativa, o governo se prepara para uma terceira vertente que será a ampliação da usina nuclear Angra I e a construção de Angra III. A geração de energia atômica é quase tão limpa quanto a hidroeletricidade mas tem o problema da eliminação do resíduo radioativo, uma questão ambiental que ninguém resolveu a contento.
A publicação do relatório que o IBAMA produziu recentemente para respaldar a negativa da licença ambiental para a construção das hidrelétricas Jirau e Santo Antonio em Rondônia mostra a pobreza dos argumentos e é de um nível tal que justifica a qualificação de autêntica “molecagem” que lhe deu um editorial.
O contribuinte não pode ser obrigado a sustentar um organismo estatal que arregimenta aliados e/ou patrocinadores empenhados em destruir a grande vantagem comparativa que alcançamos pelo fato de termos uma matriz sustentada na oferta da energia limpa e barata das hidrelétricas. (O autor, Antônio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br)