“Podemos destacar que 90% das vagas existentes no mercado de trabalho exigem que os candidatos saibam manipular pelo menos o e-mail.” A afirmação é da analista de recursos humanos da RH Assessoria, Natália Rodeguero. Para o consultor de empresas Ricardo Neves, essa constatação é uma clara demonstração que vivemos um novo momento civilizatório. Segundo ele, o estilo de vida de cada um, as organizações e os governos estão sendo progressivamente digitalizados. E aquele que se recusar a participar desse processo de inovação coletiva vai ficar para trás. Você faz parte dessa evolução?
Na opinião do professor Alessandro Paveloski, que estuda a comunicação digital, em um prazo aproximado de cinco anos quem não se “digitalizar” terá sérios problemas para sobreviver nesse novo mundo. “Mesmo que a pessoa não tenha seu dia-a-dia ligado ao computador ou à Internet é importante estar sempre atento”, adverte.
Já para o professor Marcos Américo, que faz parte de um grupo que estuda e discute a mídia digital, o computador vai se tornar tão presente na vida diária das pessoas que, um dia, ele será oferecido quase de graça, como ocorre hoje com o telefone celular. Para o telefone atingir sua finalidade básica é preciso uma linha. No caso do computador, será preciso uma conexão à Internet para ele estar completo. Segundo o professor, quanto mais pessoas conectadas melhor para as empresas.
Da mesma forma, Paveloski também acha que um computador sem conexão é uma ferramenta incompleta. “Se ele não estiver conectado, o máximo que a pessoa consegue é trabalhar com um processador de texto, uma planilha ou um editor de imagens. Se estiver conectado, ele abre as portas para o mundo”, compara.
Para o professor, a tão propalada inclusão digital não é apenas fornecer computador, mas acima de tudo facilitar o acesso à Internet. Afinal de contas, não saber manipular as ferramentas oferecidas pela Internet pode representar uma deficiência grave na hora de procurar emprego. Como disse a analista de recursos humanos Natália Rodeguero, quase todas as vagas disponíveis no mercado de trabalho exigem do candidato conhecimento mínimo, como enviar e-mail, que só é possível por meio de uma conexão.
Além disso, Natália ressalta ainda que todas as empresas utilizam a Internet como ferramenta de trabalho e precisam de funcionários que saibam trabalhar com essa ferramenta. Os candidatos que estão à margem dessa exigência, ou seja, que não possuem esse conhecimento, geralmente ocupam vagas em empresas que não precisam do auxílio da tecnologia. São empregos voltados mais aos trabalhos manuais. Em seu livro “O Novo Mundo Digital: Você já Está Nele”, o consultor de empresas Ricardo Neves, que escreve quinzenalmente para a revista Época, fala desse novo estilo de vida. Segundo ele, quando a linguagem foi inventada, há cerca de 50 mil anos, obrigou todos os seres humanos a aprender a falar. As comunidades que não conseguiam se comunicar oralmente simplesmente desapareceram. Ele usa o passado para fazer uma analogia com o presente. Na verdade, o que o autor procura deixar claro é a necessidade do ser humano estar sempre disposto a evoluir. A adaptação ao mundo digital é a evolução que se exige atualmente. De acordo com o raciocínio de Neves, quem não seguir essa tendência corre o risco de “desaparecer”.
Atentos a essa mudança, algumas empresas se adaptaram à nova realidade. É o caso do laboratório de análises clínicas Tecnolab, que há cinco anos disponibiliza na Internet os resultados dos exames de seus clientes. A idéia, segundo explicou a gerente Silvia Barberato, é oferecer comodidade aos clientes. “Quem não tem tempo de ir até o laboratório pode acessar o resultado do exame na Internet”, diz ela. No momento em que o funcionário do laboratório recebe o exame, ele pergunta ao cliente se prefere retirar o resultado no balcão ou se vai acessar em casa, pela Internet. Se ele escolher a segunda opção, recebe um protocolo com a senha de acesso para receber em casa o resultado. Segundo Silvia, todos os exames são disponibilizados na Internet, menos o de eletroforese. Além de economizar o tempo de seus clientes, o laboratório economiza também com impressão, envelopes e papel. Ou seja, além de ecologicamente correto é mais barato.
- - -
Internet revoluciona os hábitos da sociedade
A comodidade proporcionada pela Internet mudou profundamente o modo de viver de muitas pessoas. Hoje, é possível fazer praticamente de tudo sem sair de casa. Desde ir ao banco até fazer compras em uma loja de roupas, perfumes, CDs, livros, carros, eletroeletrônicos e uma infinidade de outros produtos. Além de economizar tempo, a Internet ajuda a poupar dinheiro.
O professor Percival Artur Matos planejou toda a viagem que fez para o Nordeste no início deste ano pela Internet. Ele foi de carro, mas antes traçou todo o roteiro na web. Ele saiu de casa sabendo qual era o melhor caminho a seguir, onde iria abastecer o carro, onde iria dormir e o quanto iria gastar de pedágio. As estadas em hotéis foram acertadas por e-mail. Graças à Internet, Matos não enfrenta mais fila de banco. “Do computador eu solicito talões de cheques, pago minhas contas, consulto o saldo. A única coisa que não dá para fazer, por enquanto, é sacar dinheiro”, diz ele.
No começo, o professor conta que tinha receio de fazer compras pela Internet, mas aos poucos foi adquirindo confiança e hoje compra de tudo. Sua última aquisição foi uma TV de 34 polegadas. Segundo ele, foram poucas as vezes que teve problema com essas compras e em todas elas foi tudo devidamente solucionado.
O também professor Alessandro Paveloski chegou a comprar um carro pela Internet. De acordo com ele, as operações são seguras, mas mesmo assim muita gente ainda tem medo de passar o número do cartão de crédito pelo computador.
“A segurança na Internet tem avançado muito. As grandes lojas, os grandes bancos e as operadoras de cartão de crédito possuem sistemas seguros”, afirma ele. “Tem pessoa que tem medo de usar o cartão de crédito na Internet, mas se sente seguro ao dar o cartão para um frentista ou garçom. É muito mais fácil alguém clonar o cartão enquanto o cliente não está vendo do que isso acontecer na Internet, onde as empresas colocam uma série de barreiras para garantir a segurança do usuário”, diz Paveloski.
Já o professor Marcos Américo preferiu usar a web para reunir um grupo de amigos que não se encontrava havia cerca de 20 anos. Depois que o time de vôlei se desfez, foi cada um para um canto diferente. Por meio do Orkut, Skype e e-mails, ele localizou um a um e marcou um churrasco com a participação de todos em maio do ano passado. “Se não fosse a Internet, esse encontro não seria possível”, afirma ele.
Por outro lado, há quem ainda resista ao avanço da informática. O jornalista e historiador Luciano Dias Pires até hoje escreve suas matérias na máquina de escrever. “Ainda não sei lidar com o computador. Sou completamente analfabeto na área digital”, reconhece. Quando precisa se comunicar com alguém distante, ele usa o telefone ou então faz isso por meio de cartas ou fax. Ele diz que tem uma conta de e-mail criada, mas ainda não sabe utilizá-la.
Mas toda essa ignorância digital está com os dias contados. Depois de ganhar um computador do filho, Luciano está recebendo algumas dicas da neta de como utilizar a máquina. Além disso, ele está decidido a se matricular em um curso de informática. “Hoje, quem não sabe mexer em um computador está relegado ao segundo plano”, comenta o historiador.
No entanto, a disseminação do uso do computador trouxe danos à vida em sociedade, na opinião do instrutor de ioga Fernando Perri. Segundo ele, as pessoas estão se trancando dentro de casa e não se encontram mais para conversar. Ele cita como exemplo um casal de namorados que se comunica por meio do Orkut ao invés de saírem para se divertir e aproveitar para conversar pessoalmente.
“Acho a Internet uma ferramenta fantástica. Não sou contra. Ela ajuda a aproximar grandes distâncias. Tenho amigos em Salvador e até na Itália. Só consigo me comunicar com eles por causa da Internet. Mas às vezes falamos com o nosso vizinho pelo computador. É um absurdo. Precisamos viver uma vida mais concreta e menos virtual”, sugere Perri. “Tudo depende de um equilíbrio.”
Ele defende a idéia de que, às vezes, é preciso desligar um pouco o computador e sair para tomar um café com amigos, manter um contato físico, telefonar para alguém para ouvir a voz do outro lado da linha. São pequenas coisas que ajudam a manter a vida em sociedade. “Normalmente, o dia está lindo lá fora, mas têm pessoas que preferem ficar trancadas em casa sentadas na frente de um computador”, observa Perri. “É preciso viver um pouco mais.” (AC)