Bairros

Projeto visa tornar Ferradura bairro ‘comum’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Transformar o Parque Ferradura Mirim, um dos locais mais carentes da cidade, em um bairro ‘comum’, dotado com o mínimo aceitável de infra-estrutura. Esta meta pode parecer ousada para alguns e impossível para outros tantos, mas um grupo de professores e alunos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru resolveu encarar esse desafio de frente. Por meio de uma parceria com a Associação Caná (entidade ligada à “Companhia de Maria”), a Universidade de São Paulo (USP) e a prefeitura de Bauru, eles querem mudar a cara do bairro.

Os acadêmicos tentarão capacitar os 2.500 habitantes do Ferradura Mirim de modo que eles próprios consigam superar a condição de miséria em que estão imersos. Ao todo, serão oferecidos à população 16 projetos de diferentes áreas: cursos de alfabetização, informática básica, palestras para formação de lideranças juvenis e até mesmo aulas de ginástica artística, futebol e xadrez.

A iniciativa é pioneira na cidade. “A universidade tem inúmeros projetos espalhados por diferentes regiões da cidade. Esta é primeira vez que se resolve reunir tantas ações em um mesmo lugar, visando um objetivo comum”, diz Vera Lúcia Messias Fialho Capellini, professora do departamento de educação da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru.

Ela coordena o projeto ao lado do professor Antônio Francisco Marques, também do departamento de educação. Por enquanto, a maioria das iniciativas ainda se encontra no papel. Funcionando de fato, apenas algumas poucas ações, como o cursinho pré-vestibular e as aulas de ginástica artística. Logo, porém, essa situação poderá mudar.

Semana retrasada, a Associação Caná deu início à construção do prédio onde serão desenvolvidas as atividades do projeto. O complexo contará com 12 salas de aula, refeitório, cozinha, biblioteca, quiosques, quadra poliesportiva e área verde. O dinheiro usado nas obra, cujo valor não foi revelado pela entidade, demorou quase 20 anos para ser acumulado.

“No princípio, pensávamos em desenvolver este trabalho com as populações de outros bairros carentes da cidade, como Tangarás e o Parque Bauru Mirim, até porque, naquela época, o Ferradura nem existia (o bairro surgiu na metade dos anos 90)”, afirma o irmão Domingos Fuentes Salgado, um dos integrantes da associação. A Unesp, por meio de sua Pró-Reitoria de Extensão, destinará cerca de R$ 16 mil ao programa. Desse total, R$ 3.200,00 serão voltados ao pagamento de bolsas de R$ 200,00 a cada um dos 15 universitários participantes do projeto.

O número de bolsas, aliás, é bem menor do que a quantidade de alunos envolvidos nos projetos (cerca de 40). Essa fator parece não afetar o interesse que os universitários nutrem pelo projeto. Para vários deles, o contato com a miséria do Ferradura Mirim se constituiu numa experiência singular.

Jorge Cléber Teixeira, 18 anos, Marina Lemos Villardi, 21 anos, Sandra de Lima Ribeiro, 37 anos, e Luciana Ponce, 22 anos, cursam pedagogia na Unesp. Eles participaram de um censo populacional realizado pela universidade (fizeram entrevistas com moradores), meses atrás, visando identificar a realidade socioeconômica do bairro.

Dos quatro, apenas Sandra já conhecia a realidade do Ferradura. Há cerca de dez anos, ela trabalhou como voluntária em um projeto assistencial mantido por uma igreja evangélica no local. Luciana, ao contrário, jamais havia adentrado uma favela.

“É revoltante imaginar pessoas vivendo naquela situação de miséria”, afirma Sandra. “Quando saí de lá, fiquei imaginando como aquele pessoal conseguia sobreviver dispondo de tão poucos recursos”, relembra Luciana.

Marina, que também nunca havia estado em um meio tão carente como aquele, ficou pasma após entrevistar uma mulher. “Ela não era capaz de informar a própria idade”, recorda. Jorge - que já havia passado próximo ao bairro, mas, até então, nunca havia entrado -, acredita que o projeto de extensão ajudará a transformar a dura realidade do bairro. “Até porque, com este trabalho, temos condições de mostrar à sociedade que esse problema existe e precisa ser resolvido”, afirma.

Xadrez

Na concepção dos profissionais envolvidos com o projeto multidisciplinar que vem sendo desenvolvido no Parque Ferradura Mirim pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com a Universidade de São Paulo, a Associação Caná e a Prefeitura de Bauru, a superação da miséria não se resume a ensinar as pessoas a ganharem a vida por conta própria.

Atividades lúdicas e de lazer também são vistas como essenciais para que as pessoas do bairro consigam deixar a pobreza para trás. Foi com base nessa visão que várias atividades de recreação foram incluídas no projeto. Crianças do bairro terão acesso a aulas de futebol, ginástica artística e até xadrez.

“O xadrez é um esporte que se encontra muito restrito às elites. A maioria das pessoas pensa que ele só pode ser jogado por pessoas de posses ou muito inteligentes. Acredito que, ao levá-lo até a periferia, conseguiremos quebrar esse estigma”, pensa a responsável pelo projeto, Rosa Maria Scalvi, professora do departamento de física da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru.

Ela espera que a prática do xadrez ajude a abrir novas perspectivas na vida garotos do Ferradura Mirim. “Até porque é um jogo que trabalha bastante a questão do raciocínio”, ressalta. (RF)

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