Em meados de outubro do ano passado marcamos uma pescaria em Aquidauana, no pesqueiro Toca da Onça, do saudoso Helinho Louzada. Os companheiros foram o Nezão, Pardal, Titão, Sérgio Coelho, todos de Avaí, e também o Lelo e o cumpadre Vilson, de Bauru.
Na tarde de terça-feira chegamos ao pesqueiro, depois de quase dez horas de viagem, cansados, mas assim mesmo começamos a montar o acampamento enquanto eu e o Pardal fomos “cevar” uns poços para a pesca apoitada no dia seguinte.
Á noite fizemos uma excelente janta e logo após os companheiros foram dormir. No dia seguinte, bem cedo, ficou acertado que Sérgio Coelho, Lelo e Vilson iriam descer até a Baia do Jacaré, onde, segundo informações, estava rodando por lá uma grande cabeceira de pacu, enquanto eu, o Titão e o Pardal fomos pescar no local que havíamos cevado, sendo que o Nezão ficou no acampamento em virtude de que só gostava de pescar “de barranco”.
Ao chegar na ceva, apoitamos e começamos a pescar vários peixes, sendo a maioria piraputanga, quando foi lá pelas 10h, com o sol já ‘judiando’, apareceu um bando de macacos, os quais, curiosos, chegaram bem perto de nós, foi aí que tive a idéia de jogar milho azedo (ceva) para os mesmos. Meio desconfiados, começaram a descer e pegar os grãos; ao passar uns 20 minutos, começou uma algazarra na árvore. Era macaco gritando, brigando, por vezes caindo da árvore, e nós estranhando o fato e já não pescando mais nada resolvemos voltar ao acampamento.
No outro dia, voltamos a “ceva” e justamente às 10h apareceu novamente o bando de macacos, só que desta vez era o dobro; assim mesmo joguei a ceva para eles e após 20 minutos observamos o mesmo comportamento: irrequietos, brigões e bagunceiros, sendo que isso nos intrigou, o porquê dos comportamentos dos mesmos.
À noite, comentamos o fato com os companheiros e todo mundo ficou intrigado com o caso, foi aí que me lembrei o método de fazer a “ceva”: milho azedo, na verdade, é o mesmo fica fermentando por dias, surgindo assim o álcool, processo igual ao que os índios fazem a sua cachaça.
Em suma, não estávamos dando alimento para os macacos, mas sim álcool, por isso o comportamento deles se modificava. Assim sendo, naquela noite cozinhei milho para eles. No dia seguinte (no mesmo horário), apareceu tanto macaco que por vezes os galhos das árvores quebravam não agüentando o peso deles. Assim, de imediato, comecei a jogar milho cozido aos mesmos, que devoraram quase tudo. Passados 20 minutos, os macacos, olhando para nós, começaram a urrar, zunir, fazendo gestos e logo após começaram a atirar galhos, paus e outras coisas em nossa direção. Liguei então o motor, e fomos embora do local.
Passado o susto, o Pardal comentou: “- Tá vendo? Até os macacos gostam de pinga. Foi só você não dar o milho azedo e olha a vaia que os macacos deram”.
Depois desse episódio, acabou-se a pescaria em Aquidauana, sendo que na verdade não fiquei envergonhado da vaia que levei e, sim, fiquei com remorso de ter embriagado os inocentes macacos.
Sérgio Andrade Moreira é pescador e contador de histórias.