Como é bom ter história para contar. Isso foi o que fiquei pensando outro dia, voltando de uma viagem e o sol se pondo, com a lua quase aparecendo do outro lado do mundo. Busquei nos pensamentos as coisas que já me aconteceram, de bom e de ruim, e fui matutando para ver aonde chegaria cada capítulo da vida. Se lembrasse Guimarães Rosa, saberia que a vida é um “troçopasso no universo”... ou algo assim. Se me voltasse a Machado de Assis, a vida seria um “ritmo desacelerado e vagaroso, pelas ruas de pedras, sem brisas do mar”. Poderia também lembrar-me de Álvares de Azevedo, mas isso é coisa para quem só quer ficar no lado obscuro “dessa vida de solidões”. Apartei-me dos pensamentos.
Corri em busca de algo mais concreto e percebi a vida passando, de capítulo em capítulo, e eu existindo em cada uma dessas páginas. Percebi: tenho mesmo histórias para contar. E muitas. E boas! Porque as ruins a gente nem precisa ficar ruminando... porque tem muita gente para ruminar no nosso lugar. Ficar com o lado feliz da vida é viver com qualidade. E me embrenhei a refletir sobre as histórias das vidas... dos outros.
Tem muita gente que vive a vida dos outros... que não tem história para contar... que conta as histórias dos outros... que trapaça e mente sobre as suas histórias e as histórias dos outros! São pessoas que ainda não tomaram a própria vida nas mãos. Eis o segredo da história da vida: tomar a vida nas próprias mãos. Alguém tem dúvidas disso? Hoje, depois de tantas histórias, que conto (todas) para os meus alunos e para as pessoas que assistem às minhas palestras, garanto que não tenho mais dúvida disso.
Escrever a nossa própria história é um feito maravilhoso, ironicamente inesquecível. Mas é preciso ter audácia para não escrever uma história qualquer. O novo professor de literatura da Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, no filme Sociedade dos Poetas Mortos, Robin Williams, nos diz: “Carpe diem, faça da sua vida algo extraordinário”. O espiritualista indiano Osho nos diz outro caminho possível: “É preciso divertir-se no mundo. Mas antes que você possa divertir-se, você deve acumular tanta energia, que você começa a transbordar com amor, sensibilidade, criatividade, poesia, canção, dança”. Assim é a vida. Ou melhor, assim é o lado bom da vida, o lado do bem... a rede do bem. E a pessoa deixa de ficar olhando a vida dos outros para se preocupar com a sua própria existência.
Dessa forma, tomar a vida nas próprias mãos não será nada difícil. Basta perceber quanta gente sabe e consegue fazer isto. E nem precisa ser monge ou caminhante de Santiago da Compostela. É preciso apenas adentrar na própria alma. Claro que um tantinho de meditação é preciso e mais umas outras audácias que estão bem próximas de todo mundo. A vida assim se torna bem mais fácil. Mais possível.
Então, prepare-se para escrever o próximo capítulo da sua vida, com tintas próprias da emoção e da razão. Afinal, o caminho do meio é possível. Basta você decidir cada letra que vai compor as frases e os parágrafos destes belos capítulos.
O autor, Reginaldo Tech, é professor de literatura e redação; mestre em lingüística; e secretário-executivo da ONG COMVIDA. Acesse: www.comvidabrasil.org.br, www.rededobem.zip.net e www.blogdotech.zip.net. e-mail: reg_tech@terra.comm.br