Não há vagas. Esta é a realidade de 1.816 crianças com idade de 4 meses a 6 anos, que aguardam a abertura de vagas em creches do município. Enquanto as ações da Prefeitura de Bauru não chegam aos bairros, as mães precisam de um lugar para deixar os filhos, para que possam trabalhar.
No Beija-Flor, bairro da periferia de Bauru, esta dura realidade ganhou contornos de dramaticidade em janeiro deste ano, quando uma creche considerada irregular foi interditada, numa ação conjunta do Ministério Público, Conselho Tutelar, Vigilância Sanitária, Secretaria Municipal de Educação e Secretaria Municipal do Bem-Estar Social.
A creche era coordenada pela presidente da associação dos moradores do bairro, Selma Cosmo Celestino, e atendia 20 crianças da região. Depois de ser visitada inúmeras vezes pela Vigilância Sanitária e pelo Conselho Tutelar, a creche - localizada na quadra 1 da rua Antônio Alcazar - foi interditada por falta de condições de higiene e por não apresentar nenhuma licença de funcionamento.
A situação revoltou a presidente da associação dos moradores, que afirmou ter tentado diversas vezes regularizar a situação do local, sem que tivesse sucesso. Segundo Celestino, houve uma série de idas e vindas na Secretaria Municipal de Educação, cartório e outros locais para tentar manter a creche aberta, mas nada deu certo. “Cada vez que a gente conseguia um documento eles pediam outro. Ficou difícil”, conta.
Na ocasião, a prefeitura orientou as famílias das meninas e meninos atendidos a procurar o Centro de Referência em Assistência Social (Cras) da avenida Alfredo Maia, na Vila Falcão, para encaminhar seus filhos, mas isso não resolveu o problema de falta de vagas.
Com o fechamento da creche, as mães ficaram sem opção de onde mandar os filhos. A solução veio novamente através da associação de moradores, que resolveu abrir as portas do centro comunitário para atender as crianças que não conseguiam vagas em Escolas Municipais de Educação Infantil Integrada (Emeiis).
O número de crianças atendidas no local diminuiu para sete, mas ainda assim se tornou a salvação de mães que não conseguiram vaga na creche João Paulo II, única do bairro. Selma Celestino reclama muito da ação da prefeitura, que culminou no fechamento da antiga creche. “Nunca houve ninguém para orientar a gente, cada vez eles colocavam mais obstáculos”, afirma.
As sete crianças ficam no centro comunitário na parte da tarde, já que pela manhã eles freqüentam a Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) do bairro. Apesar do número parecer pequeno, a líder comunitária afirma que há muitas mães que não tem com quem deixar os filhos e precisam ‘se virar’ para conseguir conciliar o horário de trabalho com os horários da Emei, que só atende meio-período. “Tem mãe que leva criança para o serviço”, diz.
O centro comunitário do Núcleo Beija-Flor conta com três pessoas para tomar contas das sete crianças. Apesar da boa vontade das mulheres, o centro serve apenas como local onde as mães deixam os filhos, já que não há orientação pedagógica nem atividades voltadas para a faixa etária das crianças. A única atividade de lazer se resume a uma televisão no salão de festas do centro, o que é pouco.
Para Celestino, a prefeitura não tem boa vontade em resolver o problema, já que há várias casas e terrenos na região que poderiam ser transformadas em creches comunitárias. “Tem casa abandonada no Mary Dota que serviria muito bem para abrigar uma creche, isso sem falar nas regionais que foram desativadas e ninguém usa para nada. Estão lá criando bicho”, se revolta.
Em nota enviada à Redação pela Assessoria de Imprensa da Prefeitura, a Secretaria Municipal da Educação informa que em 2007 houve abertura de novas vagas em creches conveniadas localizadas naquela região da cidade e que há estudos em andamento para criação de outras vagas.
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Solução momentânea
A falta de vagas nas Escolas Municipais de Educação Infantil Integrada (Emeiis) afeta a vida das mães, que não têm com quem deixar os filhos e não podem pagar uma babá. No Núcleo Beija-Flor, a situação chegou a tal ponto que as mães tiveram de apelar para o centro comunitário do bairro.
Com a ajuda da associação de moradores local, sete crianças ficam aos cuidados de três pessoas, que cuidam, dão banho e refeições, e são responsáveis por entregar os filhos sãos e salvos às mães.
Duas das crianças que são deixadas no centro comunitário são Nayla e João Vítor. A mãe, a doméstica Flávia Simone Batista da Silva, trabalha das 8h às 17h e há anos está na fila de espera da creche João Paulo II, sem conseguir vaga para os filhos, que ficam na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) no período da manhã e à tarde são entregues aos cuidados da presidente da associação dos moradores, Selma Celestino.
Para Silva, o centro comunitário ‘caiu do céu’, já que ela não encontrava nenhuma solução para trabalhar sem deixar os filhos sozinhos. “Teria que haver mais creches”, afirma. No entanto, ela mesmo sabe que será difícil conseguir uma vaga, já que não existe previsão, nem de novas vagas na creche do bairro nem de construção de uma nova Emeii.
Silva não poupa críticas à administração, por não resolver o problemas da falta de vagas. Para ela, já que não há solução, deveria se investir em ações comunitárias. A doméstica argumenta ainda que a prefeitura deveria ajudar o centro comunitário, que de certa forma está fazendo um trabalho que deveria ser da administração municipal.