A viola e a catira são elementos agregados às festas juninas, que foram passados de geração em geração, ressaltando o caráter celebrativo do evento, mas dentro de um espírito religioso e não apenas por diversão e prazer, explica Antônio Walter Ribeiro de Barros, mestre em literatura e artes e professor de cultura brasileira e folclore da Universidade do Sagrado Coração (USC).
De acordo com ele, as festas juninas têm uma origem pagã e outra cristã. A primeira remonta às antigas práticas que as populações rurais realizavam em relação à natureza. “Existia o culto à fertilidade e todos os anos os povos primitivos realizavam práticas que celebravam essa fertilização.” Ele aponta que o cristianismo, devido a um processo de aculturação, transformou estas práticas em uma festa cristã. “No meio rural a festa é extremamente religiosa. Ela começa com a reza de um terço e uma celebração.”
Para o caipira, a festa junina, aponta Barros Jr, representa o início de um ciclo e uma tentativa de resgate ao sagrado. “Uma festa junina é mais do que um encontro social. O caipira precisa disto, da mesma forma que celebra os processos tradicionais da liturgia católica, como o Natal.” Dentro deste contexto, os símbolos são muito importantes. “O mastro de Santo Antônio, São Pedro e São João representam a terra abençoada, são símbolos ligados à colheita e à terra. E as cores de sua bandeira simbolizam a vida, a alegria e as dádivas de Deus. A fogueira significa renovação. Já a figura de São João Menino simboliza a esperança no futuro”, detalha.
Ciclo
A cultura caipira se formou com a crise do bandeirantes, explica Barros Jr. “Quando eles deixaram de procurar bens preciosos, se transformaram no caipira. Mudaram-se para bairros isolados, em pequenas comunidades, onde a relação entre as pessoas é de “compadrio”. “O caipira se relaciona com os compadres. Se ele precisa de um serviço em casa, ele chama o compadre, é tudo um sistema de troca. Com o passar do tempo, ele passa a ter necessidade de produzir mais para vender porque antes tinha sua horta, seus animais, caçava e pescava.”
Além disto, aponta Barros Jr, o caipira tinha o tempo de ócio. “Quando o europeu chegou no Brasil, criou-se a falsa imagem de que o brasileiro é vagabundo porque o caipira tinha uma vida muito dura, acordava muito cedo, mas tinha tempo para caçar, pescar, parar para fumar cigarro de palha e descansar. E a celebração junina fazia parte de tudo isto, era uma coisa muito importante na vida dele. Hoje as pessoas encaram isto como uma coisa importante para evitar o estresse, mas antes elas não entendiam. Então a imagem do caipira foi se deturpando.”
Por isto, Barros Jr. defende que, ao preservar a cultura caipira, as pessoas valorizam as coisas importantes da vida. “Antigamente as haviam as festas nas comunidades, nas ruas, onde as pessoas se reuniam. Vivemos em uma sociedade consumista que só pensa em ter e agregar. As pessoas se esquecem do momento de partilhar com os amigos e a comunidade e, muitas vezes, não param para agradecer e valorizar tudo isto.”
A faxineira Sandra Aparecida dos Santos, porém, segue o fluxo inverso da maioria das pessoas e faz de tudo para manter vivo os valores interioranos. Para isto, ela promove há anos uma festa junina na rua de sua casa, localizada no Núcleo Joaquim Guilherme, em Bauru.
Contando com a solidariedade de todos os moradores do bairro, as mulheres se reúnem para preparar as comidas típicas da festa e os homens e crianças ajudam na decoração. ‘Fazemos bandeirinhas de papel e montamos barracas. Quem pode leva um prato ou dá um ingrediente para um doce, por exemplo, mas, se a pessoa não tiver, vai na festa do mesmo jeito. O importante é nos reunirmos”, diz.