Itápolis - A seleção mais rigorosa de mão-de-obra na colheita da cana-de-açúcar em SP está jogando migrantes, a maioria do Nordeste, para a cultura da laranja. Sem qualificação, ex-trabalhadores da cana aceitam receber menos na laranja para não ficarem sem emprego.
O fenômeno tem duas faces. Como os lavradores mais qualificados preferem trabalhar na cana, que paga mais, produtores de laranja se vêem obrigados a aceitar a mão-de-obra disponível - o que incentiva a corrente migratória da laranja e a ação dos “gatos”, empreiteiros que têm lucros aliciando trabalhadores de outros Estados para lavouras da região.
Somente neste mês, Itápolis, a maior produtora de laranja do Brasil, recebeu cerca de 200 migrantes de Alagoas, que vieram em quatro ônibus - fretados por “gatos” - das cidades de Olivença e Arapiraca. Outros 100 alagoanos são esperados para a safra deste ano.
A “invasão” de migrantes preocupa a cidade. Mesmo com a oferta na citricultura, muitos migrantes se vêem obrigados a voltar para seus Estados. No mês passado, a Prefeitura de Guariba fretou um ônibus para levar de volta 43 maranhenses aliciados com a promessa de trabalho. “O trabalhador bom na colheita de laranja foi para a cana ganhar mais e sobrou para nós aquele que não está preparado para o trabalho”, disse Valdir Butarello, presidente do Sindicato Rural de Itápolis.
Coordenadora da Pastoral do Migrante de Guariba, a irmã Inês Facioli afirmou que os produtores de cana selecionam os trabalhadores; já os de laranja, não. “Nunca escutei nenhum trabalhador falar que não foi aceito pela laranja.”
Segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA) a cana pagou, em 2006, média de R$ 3,11 por tonelada colhida. Já a laranja pagou R$ 0,45 por caixa de até 27 quilos. Entidades ligadas aos trabalhadores rurais estimam que o salário médio do colhedor de laranja neste ano não ultrapasse R$ 500,00 - já o de cana alcançaria R$ 800,00 mensais. “A colheita da laranja virou um bagaço para o trabalhador”, disse Wilson Rodrigues da Silva, presidente do Sindicato dos Empregados Rurais de Guariba. “O trabalhador só vai na laranja se não tiver opção na usina.”
Nem mesmo tipo de trabalho na colheita da laranja é visto como vantagem, segundo a Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp). “Os trabalhos quase que se equiparam”, disse o segundo-tesoureiro da entidade, Miguel Ferreira dos Santos. “O colhedor passa o dia carregando sacolas de até 38 quilos. Deveria carregar, no máximo, 27 quilos.”
Na região, que concentra cinco das dez principais cidades produtoras de laranja do país, a produção da fruta registrou queda de 2004 para 2005 - segundo o IEA, a laranja viu o total de caixas cair de 145,7 milhões para 136,8 milhões. Em dez anos, a área de plantio da laranja caiu de 700 mil para 600 mil hectares. A cana avançou 1 milhão de hectares.