O universo de fantasia está de volta com “A Pedra do Reino”, microssérie de cinco capítulos que a Rede Globo estréia hoje, após o “Casseta & Planeta”. Com um time de atores ainda desconhecido do grande público, a produção tem como objetivo revelar novos talentos que atuam fora do eixo Rio-São Paulo, bem como homenagear os 80 anos do autor Ariano Suassuna.
“Estou propondo uma espécie de caravana para que a gente conheça melhor nosso território”, afirma o diretor Luiz Fernando Carvalho, que com a obra dá início ao “Quadrante”, projeto que pretende mostrar diferentes histórias da cultura brasileira em quatro pontos distintos do País.
O processo de produção para “A Pedra do Reino” reproduz o modelo de parceria que a emissora vem mantendo com produtoras independentes, como no caso das minisséries “Cidade dos Homens” (2002) e “Antônia” (2006). Dessa vez os trabalhos foram realizados em conjunto com a Academia de Filmes, produtora que começa a realizar seus primeiros trabalhos fora da área de publicidade.
Filmada em três meses na pequena cidade de Taperoá, no sertão da Paraíba, “A Pedra do Reino” tem Pedro Diniz Quaderna como condutor da história. Ele se apresenta como um velho palhaço que percorre as estradas sertanejas e descreve suas memórias como em um espetáculo popular de rua. “Quaderna é um personagem que tenta resgatar as lembranças de sua vida”, afirma o ator pernambucano Irandhir Santos, que estréia na TV.
Nascido na cidade de Barreiros (PE), Santos tem experiência em teatro de rua e está ansioso para ver o resultado das filmagens. “Eu, assim como os demais integrantes, não vemos a hora de assistir ao resultado.” Os outros 50 atores que participam da história também são moradores de cidades nordestinas.
Em Taperoá, foi montada uma cidade cenográfica de 2 mil metros quadrados. Todos os adereços utilizados nas filmagens foram produzidos por artesãos locais. “Tivemos a colaboração de artistas plásticos, bordadeiras, costureiras e marceneiros”, conta Carvalho. A cidade foi o cenário onde Suassuna passou parte de sua infância.
Assim como está descrito no livro homônimo publicado pelo escritor em 1971, “A Pedra do Reino” fala sobre os estranhos acontecimentos que surgem na família de Quaderna: a misteriosa morte de seu padrinho Dom Pedro Sebastião (Pedro Henrique Dias) e os sangrentos rituais promovidos por seu bisavô, Dom João Ferreira Quaderna, perante à própria Pedra do Reino. O local citado no livro não é fruto da imaginação de Suassuna. Ele fica no município de São José do Belmonte, também em Pernambuco. “São duas formações rochosas gigantescas e pontudas perdidas na caatinga”, descreve Carvalho.
Segundo a descrição de Suassuna, lá ocorreram rituais de fanatismo religioso para cultuar a figura do rei português dom Sebastião, ainda no século 16. A história tem início com a Morte Caetana, uma onça alada que sobrevoa o sertão por onde passa a trupe de pesquisa em grupos de teatro da cidade. Ainda criança, Quaderna contracena com o cantador João Melchíades (Abdia Campos), que surge como o primeiro mentor intelectual do personagem.
Sintonia
Encontrar a sintonia entre os atores foi um dos obstáculos enfrentados por Carvalho na hora de montar o elenco. Para promover maior integração entre eles, as oficinas de preparo contaram com palestras de Fernanda Montenegro e do próprio Ariano Suassuna, que discursou sobre as principais características da obra. O resultado parece ter dado certo.
“Ele fez com que todos se sentissem membros de uma mesma história. É incrível como ele teve o poder de fazer todos abraçarem a mesma causa com o mesmo entusiasmo”, descreve o ator Flávio Rocha, que interpreta o poeta repentista Lino Pedra-Verde. O desafio do diretor se desdobra nas próximas empreitadas previstas pelo “Quadrante”, que pretende retratar três outros títulos da literatura brasileira: “Dom Casmurro”, de Machado de Assis (Rio); “Dançar Tango em Porto Alegre”, de Sérgio Faraco (RS) e “Dois Irmãos”, de Miltom Hatoum (AM). “Estou propondo, por meio da transposição de textos literários, uma pequena reflexão sobre nosso País”, conclui Carvalho.