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Desafios da universidade pública


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Ao se observar o percentual do PIB brasileiro investido na educação e o tempo médio de escolaridade, pode-se afirmar que a educação é “sub financiada” e o povo “sub educado”. A crise financeira, como diz Dilvo Ristoff, é o “matador silencioso” da educação. A expressão utilizada pelo eminente professor, mostra bem o processo de deterioração gradual da educação no Brasil. Uma biblioteca, segundo ele, não é como um hospital, onde a retirada de um medicamento significa a morte imediata do paciente. Uma biblioteca, que não atualiza o seu acervo, causa inconveniente, mas não mata. Depois de anos é que se percebe seu efeito danoso sobre a educação de várias gerações de estudantes. Tem-se, ainda, o desafio relacionado ao tipo de conhecimento a ser produzido. Parece-me que o conhecimento gerado ou de interesse dos países centrais, sob o ponto de vista ético, é negativo já que é maravilhoso para um quinto da população e terrível para o resto do mundo. Apesar disto, a Universidade não pode deixar de ser o lugar onde a consciência da sociedade floresce e se renova.

Com um quadro social injusto, constituído por 20 % de cidadãos e 80 % que se distribuem entre marginalizados e miseráveis, como pode a universidade pública contribuir para a busca de um caminho que leve a sociedade brasileira a uma situação mais justa e equilibrada? A primeira resposta a esta pergunta é a seguinte: só a expansão do ensino público garante a disseminação do conhecimento e o alargamento dos horizontes com igualdade de oportunidades. Os índices de inadimplência mostram que a capacidade de expansão de vagas no ensino superior privado está no limite suportado pelo poder aquisitivo da população, portanto, somente a universidade pública terá condições, doravante, de suportar o crescimento requerido pelo País.

Sem amplo acesso ao ensino superior público e aos níveis de qualificação profissional que ele proporciona, quais serão as chances daqueles que terão de competir nesse mercado internacionalizado e pragmático? Só a expansão do ensino público garante a competitividade econômica porque só na Universidade pública, além de se distribuir o conhecimento reconhecido e consagrado com eqüidade social, se tem condições de gerar, através da pesquisa, o conhecimento científico e tecnológico que nossa sociedade necessita. A Unesp endossa a Declaração de Paris de 1998, apoiada por mais de 180 países, que coloca o conhecimento como bem social e a educação como serviço público, direito de todos e dever do Estado. O requisito básico é um aporte de recursos que possa fazer frente aos custos permanentes inerentes ao processo de expansão. Este País não terá futuro sem uma inflexão na atual política educacional e sem universidades públicas fortalecidas e esse fortalecimento implica na consagração do dever do Estado sobre o ensino público, gratuito e de qualidade. A segunda resposta: as universidades públicas devem promover uma formação crítica e verdadeiramente interdisciplinar. Isto é necessário quando se pensa em disponibilizar, a nossa sociedade, um profissional diferenciado. Jovens com formação crítica, cidadãos plenos, pessoas com compromisso para, na condição de agentes multiplicadores, ajudarem a transformar a realidade deste País.

A terceira resposta: as universidades públicas não podem deixar de refletir e propor políticas públicas voltadas para temas de interesse nacional, como preservação ambiental, desenvolvimento sustentado, segurança, gestão urbana, incorporação de tecnologia aos produtos agrícolas, geração de softwares, qualificação profissional e emprego. É preciso esclarecer que é errado entender como Universidade pública aquela que é estatal. É errado entender que o compromisso da universidade pública com a sociedade é o de criar mecanismos que permitam o ingresso de jovens das chamadas minorias independentemente da qualificação que eles tenham. Ela é pública quando se insere na sociedade através do estabelecimento de políticas de interesse coletivo e da extensão.

Ela é pública quando prepara seu aluno - independentemente de sua origem - para cumprir, antes de tudo, uma função social. Quarta resposta: as universidades públicas devem atuar na formação de professores para o sistema inicial de ensino para que ele possa ocorrer com qualidade e de forma a beneficiar o imenso número de brasileiros mal atendidos nessa demanda básica. Segundo o MEC, o país tem 1.380.000 professores, dos quais 779 mil não têm curso superior; destes, 124 mil não concluíram o nível médio e 63.700 nem mesmo o fundamental. A formação superior do educador exige um profissional com capacidade de inovação, capaz de participar dos processos de tomada de decisão e de reconstrução da sociedade.

Por isso, a universidade deve promover uma formação que lhe forneça subsídios para constituir competência técnico-científica, sensibilidade ética e muita solidariedade social. Que seja um profissional consciente do significado da educação e capaz de estendê-lo aos educandos. Deixo meu testemunho: a Unesp tem ciência destes desafios e trabalha para superá-los.

O autor, Paulo Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp-Bauru

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