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Escárnio renaniano


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Todo mundo sabe que o fato do senador Renan Calheiros ter uma filha extraconjugal não é politicamente relevante. Todos sabem, também, que o pagamento de pensão alimentícia não é politicamente importante, pois se trata de uma obrigação legal. Ainda, não é politicamente significativo se ele possuía recursos, em dinheiro ou em bois, para pagar a pensão. O que tem significação política, ofendendo a ética e a moralidade parlamentar é o pagamento da pensão pelo lobista de uma empreiteira do governo. Como a gente diz na linguagem coloquial, a troco de quê um empregado de uma empreiteira, com certo status social, precisaria ser encarregado de fazer pagamentos que poderiam ser feitos por TED bancária ou encaminhados por um dos assessores do próprio senador? Não bastasse esse procedimento suspeitíssimo, o senador fez uma defesa que foi um verdadeiro escárnio ao Senado e à Nação, apresentando notas fiscais frias e recibos falsos. Que respeitabilidade pode ter esse senador e aqueles que foram abraçá-lo após o seu discurso e agora tentam inocentá-lo, a qualquer custo?

Se o presidente do Senado escarnece da própria instituição e da sociedade brasileira, não deixa de ser escárnio, também, o que vêm fazendo os outros senadores, não considerando que fazer uma defesa de fato indefensável pressupõe o comprometimento com fatos da mesma natureza. Se entre o dever maior de honrar o mandato que os eleitores lhe deram e a promessa feita na posse, de servir à Nação, eles preferem o pacto corporativista, para se resguardar de também serem descobertos, igualam-se ao acusado. Em comparação com a citação evangélica, ‘que tenha a coragem de acusar o colega incriminado aquele que não tenha o rabo preso’.

A quebra do decoro parlamentar é evidente para toda a sociedade, menos para os senadores que querem livrar o colega da condenação. Não porque eles não a vejam, mas porque desprezam o compromisso assumido perante a Nação e o eleitorado. A discussão em torno dos bois do Ranan é uma enrolação, pois não é por ter mais ou menos bois que ele quebrou o decoro parlamentar, mas por duas razões. A primeira e mais importante é a suspeita de estar recebendo dinheiro da empresa Mendes Júnior. Esta é que é a razão do processo. E qual foi a defesa? Que ele não precisava dessa ajuda porque tinha recursos oriundos da venda de bois. Qual o tonto que engole isso? A defesa deveria ser convincente negando o recebimento do dinheiro e não que não precisava dele. A segunda é uma agravante da primeira, porque apresentou documentos falsos – notas fiscais frias e recibos forjados. Esta, por si só, já seria quebra do decoro parlamentar.

Com tudo isso, o Senado, formado por parlamentares supostamente mais experientes e mais responsáveis, que teria o papel de moderador, uma espécie de conselheiro, de revisor, o responsável pelo equilíbrio da gestão do Estado, perde credibilidade. Por essa razão que o senador Pedro Simon disse: “Vai chegar uma hora em que o cidadão não vai mais pagar impostos e nem reconhecer ninguém como autoridade”.

O autor Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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