O fumo, a diabetes e a hipertensão não são os únicos fatores que podem levar um paciente a ter os membros amputados. A falta de informação também figura como uma das principais vilãs. Por conta dela, o motorista Vair Ferreira, 59 anos, procurou assistência médica quando já era tarde demais.
“Depois que eu descobri a diabetes, eu tinha médico direto. Eu reclamava (de dores nas pernas) e me diziam que não era nada. Ninguém me orientou a procurar um especialista. O mais grave é a falta de informação”, reitera. Um dia, percebeu a perna direita gelada e foi ao Pronto-Socorro Central (PSC). Quando voltou para casa, há três anos, já estava sem ela.
“Hoje, quando chega alguém reclamando, oriento a procurar um médico imediatamente”, conta.
Há dois anos, também amputou a perna esquerda. “Fiz tratamento com três médicos, mas não adiantou. Primeiro perdi dois dedos, depois metade do pé, depois troquei a veia da perna. Em 14 dias, fiz três cirurgias”, comenta.
Os membros inferiores são amputados em 90% dos casos, segundo o diretor do Departamento Regional de Saúde – 6 (DRS-6), Carlos Macharelli. Normalmente, as cirurgias são decorrentes de obstrução arterial crônica, como o caso de Ferreira.
Já as amputações de órgãos superiores (que correspondem entre 5% e 8%) geralmente são provocadas por acidentes.
Velocidade
Os homens ainda são as principais vítimas. Quanto mais avançada a idade, mais intenso deve ser o acompanhamento médico, recomenda o cirurgião vascular Lívio Nakano. “A prevenção é fundamental. Tem que ter consulta de rotina nos núcleos (especialmente quem tem diabetes, hipertensão). O que impressiona é a velocidade com que a coisa muda (e resulta numa amputação)”, alerta o médico.
Para evitar a mutilação, a Secretaria Municipal de Saúde oferece aos usuários da rede municipal o Programa de Controle do Diabetes Mellitus, que tem como objetivo a prevenção de amputações por meio de trabalho educativo, desenvolvido pelos enfermeiros das unidades de saúde com os pacientes portadores da doença.
Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, pacientes diabéticos, por terem a circulação periférica comprometida, podem desenvolver úlceras nos pés, caso não observem alguns cuidados. Entre eles estão o uso de sapatos confortáveis, o corte adequado das unhas e a limpeza dos pés, que deve ser sempre examinado. A idéia é que se verifique eventuais lesões.
____________________
Mutilações aumentam mais de 15% em 1 ano
A média de amputações por mês passou de 60 para 70 de 2006 para 2007, segundo informações do DRS-6. A alta de mais de 15% pode ter várias explicações, além da falta de informação dos pacientes.
Entre eles está o acesso aos programas de prevenção. Há quem defenda que, por acolherem um número maior de pacientes, os registros subam. Outros acreditam no contrário. Que por falta de atendimento, quando o paciente consegue tratamento já é submetido à cirurgia de amputação. O descuido com a saúde é outro fator.
No Brasil, de 40% a 70% das amputações ocorrem em pacientes diabéticos e 80% delas têm início em pequenas lesões. “Trata-se de uma mutilação. Só se faz porque não existe outra alternativa. É uma situação limite”, afirma o cirurgião vascular, Lívio Nakano. De acordo com ele, por conta do problema, muitos pacientes entram em depressão.
Não é o caso do motorista Vair Ferreira. “Não me apavorei, já passei por coisas piores (na vida)”, comenta. Na época das cirurgias, lhe ofereceram respaldo psicológico, mas ele considerou desnecessário. Sua maior luta é parar de fumar. De três maços, agora fuma um.
“O duro é ficar parado. Causa um pouco de descontrole. A gente tem um pouco de ansiedade, é difícil”, confessa. Ele aguarda encaixe para utilizar prótese, que será liberado pelo Hospital Estadual.