Cultura

Diáspora judaica

Por Adriana Fricelli | Com Redação
| Tempo de leitura: 4 min

No início da década de 30, judeus e outros grupos indesejados pelo regime nazista eram eliminados na Alemanha de Adolf Hitler. Aqui, no lado debaixo do Equador, o Holocausto - responsável pelo extermínio de cerca de seis milhões de pessoas - era apenas uma triste história passada além mar.

Mas não é isso que o escritor e jornalista Lucius de Mello conta no livro “A Travessia da Terra Vermelha: uma saga dos refugiados judeus no Brasil”, lançado hoje pela editora Novo Século durante o Circuito Paralelo de Idéias da Festa Literária Internacional, o Off Flip, em Paraty (RJ). O livro terá outro lançamento em Bauru, no dia 4 de agosto, na livraria Jalovi.

Ambientada na cidadezinha de Rolândia, a 20 quilômetros de Londrina, a obra traz episódios que coloriram a vida dos judeus refugiados na terra vermelha do Paraná, entre os anos 30 e 50. O próprio título do livro faz uma relação entre a travessia dos judeus pelo mar vermelho no antigo Egito e a realizada séculos mais tarde, no sul do Brasil.

São histórias de resistência e esperança garimpadas durante quatro anos, no Brasil e na própria Alemanha, pelo escritor. Mello chegou a passar um mês na cidade alemã de Frankfurt, dias em Curitiba debruçado no arquivo público, além de longas tardes de conversas com acadêmicos que escreveram teses sobre a cidade.

Graças ao “faro jornalístico”, o escritor afirma que foi além de todos os documentos históricos encontrados e conseguiu fotos inéditas das festas hitleristas promovidas na cidade de Rolândia na década de 30, em plena mata brasileira.

“Por ironia do destino, estes refugiados fugiram da perseguição promovida na Alemanha e foram parar no norte do Paraná, numa colônia parcialmente nazista. O grau de problemas foi muito menor já que eles não chegaram a ser mortos, no entanto, foram muito humilhados”, diz Mello, finalista do prêmio Jabuti em 2003 por “Eny e o Grande Bordel Brasileiro”.

Causos e casos

“Me senti cuspida pela Alemanha”, relata, no livro, uma amiga do pintor João Cândido Portinari, que fugiu do país de origem para tentar um vida mais digna no Brasil, por volta da década de 30. Ela e outros conhecidos do artista chegaram a ser presenteados com quatro telas do amigo.

Com depoimentos ricos e curiosos, o escritor Lucius de Mello humaniza fatos históricos no livro “A Travessia da Terra Vermelha: uma saga dos refugiados judeus no Brasil”, que conta a saga das famílias alemãs, judias e cristãs que fundaram a cidade de Rolândia. “O principal de tudo isso é que fui tocado por este passado vivo”, descreve o escritor.

Para escrever o romance, o autor ouviu, praticamente, todos os descendentes diretos dos pioneiros no Brasil e na Alemanha, cerca de 50 pessoas. Na obra, Mello fala das dificuldades que essa gente teve ao enfrentar, no meio do mato, as doenças, os insetos, os bichos, o preconceito, a falta de socorro médico, a saudade dos amigos e parentes que não conseguiram fugir e morreram nos campos de concentração.

Esse povo acompanhava as notícias da guerra por um único rádio que a polícia política só permitiu que ficasse na colônia porque pertencia a um imigrante polonês. Em meio a tantas histórias, algumas são um tanto curiosas, como a do físico judeu Rudolf Ladenburg que, dos Estados Unidos, enviava cartas à prima Agathe com notícias das pesquisas da equipe de Albert Einstein. Ou então a do soprano que dava aulas de música na colônia e interpretava trechos de Madame Butterfly para a vaca Berenice, acreditando que a ópera é estímulo à produção de leite.

Autor

Lucius de Mello nasceu em Bariri em 1964, viveu muito tempo no Paraná e adotou por muitos anos Bauru como sua cidade. Fez sua estréia na literatura em 1987, com a publicação do livro de contos “Um violino para os gatos”, que recebeu elogios de Luís Fernando Veríssimo e de Rachel de Queiroz .

Foi repórter da TV Globo por mais de dez anos e fez parte da equipe de jornalismo do Jornal do SBT, em São Paulo. Em 2002, lançou “Eny e o Grande Bordel Brasileiro”, obra finalista do prêmio Jabuti no ano seguinte.

Atualmente o jornalista mora em São Paulo, onde trabalha num projeto da TV Cultura, o Canal Saber. Também é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo (USP). O próximo livro de Mello ainda não tem previsão de lançamento, mas o escritor adianta que será um romance ambientado em Paraty (RJ).

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