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Renan, Roriz e Maquiavel


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Nicoló Machiavelli, ou simplesmente Maquiavel, no seu mais conhecido livro, O Príncipe, publicado em 1532, trata de ensinamentos para a conquista e manutenção do poder e em um dos capítulos examina como devem ser avaliadas as forças de um principado. Maquiavel considerava que um príncipe que tivesse uma cidade bem fortificada e não fosse odiado pelos seus súditos não poderia ser atacado, mas se fosse o seu adversário se retiraria envergonhado, pois não teria sucesso ao enfrentar alguém tão sólido militar e politicamente. Se, por ventura, algum súdito tergiversasse no apoio ao príncipe demonstrando pouco interesse na sua sorte, o mesmo superaria tal dificuldade dando ao súdito esperança de que o inimigo seria vencido e, ao mesmo tempo, incutiria o temor da crueldade do inimigo se sucesso em sua empreitada obtivesse. Ensinava, ainda, Maquiavel que a natureza dos homens é aquela de obrigar-se tanto pelos benefícios que faz como por aqueles que recebe, donde conclui-se que não será difícil a um príncipe prudente conservar firmes, antes e depois do cerco, os ânimos de seus súditos, desde que não faltem víveres nem meios de defesa.

O presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, tem se comportado como um príncipe a quem era dado, publicamente, partilhar o leito com sua mulher e outras que bem lhe aprouvera. Falta de decoro é coisa republicana, pois na monarquia falta de decoro é aquilo que constrange o soberano que representa toda uma sociedade e seu povo. O comportamento do presidente do Senado, após as denúncias, mostrou-se mais grave do que os atos em si praticados, pois configurados que foram como incompatíveis, num primeiro momento, com o exercício da presidência da Casa, num momento posterior, com a insistência de Renan na negativa do óbvio passou a comprometer o próprio mandato de senador. Em 1977, a ditadura sob o comando do General Geisel iniciou o processo de abertura lenta e gradual anunciado após ter baixado o Pacote de Abril. Franqueado um horário na televisão para a oposição consentida (o velho e bom MDB) dizer o que bem entendesse, à frente Ulisses Guimarães, os discursos foram de deixar o comando do Regime da cor da farda dos generais. Um deles, pela contundência, levou seu autor, deputado Alencar Furtado, líder da bancada na Câmara, à perda do mandato, pois bom orador que era disparou contra os recém-anunciados “senadores biônicos”: “Na cadeira que sentou Ruy Barbosa sentarão os picaretas da República”. Essa frase virou bandeira de campanha e talvez tenha sido o que de melhor Alencar Furtado produziu na sua vida parlamentar. Hoje, na cadeira de Ruy Barbosa continuam sentando picaretas da República. O voto popular, que diferenciava os “biônicos” dos representantes legítimos, passou a ser apenas mero detalhe entre os picaretas.

O senador Joaquim Roriz, tetra-governador do Distrito Federal, imagina que sua renúncia funcionará como a água sagrada contida no Santo Graal que quando derramada sobre as chagas as assepsia. Ledo engano. Mesmo que tente voltar nos braços do povo não será tarefa líquida e certa, pois quer queira ou não o Brasil está mudando, se não no ritmo que queremos pelo menos vai mais depressa do que os picaretas desejam. Roriz, cercado por gravações bombásticas, mal teve condições de dar esperanças a seus súditos mesmo se socorrendo, na Tribuna, das bênçãos de Nossa Senhora. A porta da renúncia acabou servindo a ele como os buracos do assoalho apodrecido servem aos ratos na hora da fuga. Ao renitente Renan restará o calvário da cassação.

Nem um nem outro, nem Renan nem Roriz, poderiam inspirar Maquiavel no capítulo de O Príncipe sobre a defesa do principado. A ambos faltou, além da honestidade, os víveres da moral e os meios da grandeza de caráter, características que devem ter todos os que exercem uma representação de tamanho significado como é a de um Senador da República. Por isso, seus principados estão capitulando sem que tenham súditos para suas defesas.

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil e foi deputado federal, 1978 a 1990, secretário da Agricultura, 1987/88 e prefeito de Bauru, 1993/96

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