É arriscado pedir para você ler este texto amanhã, mas pela sensibilidade do tema, talvez valha o risco. Hoje estamos ocupados demais com coisas importantes para fazer, conquistar ou, simplesmente, reproduzir. Discutir questões nem sempre comuns aos padrões estabelecidos de sociedade, vital para nossa aceitação no grupo, é quebrar uma rotina que nem todos estão dispostos a experimentar.
Assim, como não temos tempo, vou direto ao assunto. Por que matamos para viver? Não falo das guerras, genocídios, homicídios ou outros conflitos entre humanos; estes já têm visibilidade suficiente para uma reflexão. Quero dizer da crueldade que diariamente praticamos contra outras espécies em nosso benefício.
Matar animais para nossa alimentação, segurança ou por qualquer outra justificativa de sobrevivência é perfeitamente natural. Os nossos antepassados já faziam isso e, não por acaso, perpetuaram nas paredes das cavernas esta relação. Era “eu” ou “eles” na luta pela vida. Mas e se não estamos mais no mundo primitivo e já dispomos de opções suficientemente comprovadas de substituição para as nossas necessidades, por que continuamos matando? E se, ainda assim, incluímos na lista o sacrifício por mero prazer, diversão ou satisfação de conforto? Como justificar tudo isso se sabemos que a dor, o sofrimento e o terror psicológico diante da morte não nos diferenciam.
Talvez seja por que somos superiores e mais avançados? Bem, se assim fosse seriam bons motivos para agirmos diferente e, além do mais, nem somos tão evoluídos como imaginamos: peixes sobrevivem debaixo d’água e aves voam pelos céus e nós, humanos, só fazemos isso precariamente com ajuda de “próteses”. E se continuarmos agindo com a irresponsabilidade predatória que praticamos, este planeta poderá tornar-se inóspito em muito pouco tempo. O naturalista Charles Darwin, autor de “A origem das espécies”, afirma que a “diferença de inteligência entre o humano e o animal mais evoluído é uma questão de grau e não de espécie”.
É inegável que o abate de bichos sob o ponto de vista econômico gera lucros, empregos e facilidades para os povos. Como os escravos também proporcionavam riquezas à raça, branca, e calando as mulheres imaginava-se render melhores decisões aos humanos, machos. Nas botas do cowboy ou nos experimentos da ciência, na indústria de cosméticos ou nas ceias de Natal há o sofrimento animal em contraponto ao nosso bem-estar. Nesta pragmática relação custo-benefício a vantagem esta a nosso favor e mudanças presumem o fim de uma preguiça social, aparentemente uma longa e quixotesca luta.
As leis do mercado justificam e descriminalizam nossos atos e o privilégio da alma se encarrega de indulgenciar nossa culpa. Aí estão as senhas para fazer o que bem entendemos. Então, matamos porque podemos fazê-lo e nada nos castiga por isso; nem na terra, nem nos céus. A pergunta é: mesmo com tantas “autorizações”, temos esse direito?
Seres são transformados em “coisas”; mugidos, grunhidos e gritos reduzem-se a resíduos de um processo friamente mercantilista, como se cavar num corpo vivo fosse o mesmo que numa pedra ou metal inanimados. O pior é que cometemos essa violência num mundo invisível, surdo e escondido da “sensibilidade humana”, propositalmente construído para nos proteger das nossas contradições.
A realidade do abate é bem diferente das agradáveis embalagens de consumo. Você já parou para pensar como o animal que gerou o bife do seu prato foi criado, transportado ou morto? Talvez sim, mas o escapismo fala mais alto perante o rolo compressor da vida real.
É importante ressaltar que nós matamos não porque somos malvados ou vilões, apenas ignoramos. O desconhecimento gera o engano, como tantos erros históricos da Humanidade. Embora idéias em defesa de bichos sejam recebidas muitas vezes com futilidade ou desdém em certos espaços, é construtivo expô-las. Caso você se alimente de carne e faça uso de produtos de origem animal, como eu, mas fica desconfortável diante de uma certa cegueira cultural para mudanças de paradigmas, permita efervescer sua inquietude. Mesmo que seja amanhã.
Muito provavelmente os seres humanos consigam, um dia, criar um ambiente menos violento para sobreviver e quem sabe essa brutalidade desnecessária possa tornar-se passado em nosso processo evolutivo. Podemos mudar nossos costumes não apenas por uma questão de compaixão, piedade ou pena. Nem somente devido aos danos que as criações industriais gerem ao planeta ou aos possíveis cânceres que proteínas e gorduras animais desencadeiem em nosso organismo. Deixaremos de matar simplesmente porque somos inteligentes, civilizados e éticos.
O autor, Luís Victorelli, é jornalista - e-mail lvbauru@gmail.com