É inconcebível que em pleno século XXI convivamos com doenças que poderiam e deveriam estar erradicadas há décadas. Ao mesmo tempo em que somos campeões no futebol profissional, também estamos entre os líderes em uma doença arcaica: o câncer de pênis. O Brasil está atrás apenas de países africanos nas estatísticas mundiais. O I Estudo Epidemiológico sobre a doença, elaborado pela Sociedade Brasileira de Urologia, mostra que o tumor atinge, sobretudo, estados do Nordeste, apesar de São Paulo estar em primeiro lugar no ranking.
Nós, urologistas, queremos chamar a atenção da população e do Ministério da Saúde para este tumor mutilante e agressivo, que atinge o homem física e psiquicamente, destruindo sua auto-estima e suas relações interpessoais. E que, apesar disso, ainda não figura nas estatísticas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), demonstrando o pouco interesse das entidades governamentais na consideração desta doença que se alastra no país.
Nos Estados Unidos e Europa é doença rara, representando menos de 0,5% de todos os cânceres que atinge o homem. No Brasil, esta cifra passa para 2,1%, atingindo 16% no Maranhão, onde supera os casos de câncer de próstata. No ano de 2005, cerca de mil brasileiros foram submetidos à amputação peniana na rede pública de saúde, segundo o Data / SUS – que não relata todos as ocorrências brasileiras. Em alguns casos, também houve a amputação das pernas por metástases que atingiram os vasos femorais.
O mais drástico é constatar que o câncer de pênis atinge a população mais carente, aquela que não recebe educação e informação adequada e que está à margem da sociedade, sem assistência médica. A doença está associada à presença do prepúcio e à falta de higiene genital, sendo raro nos homens circuncidados. Também se verifica relação com a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis.
Sensibilizada com esta situação e cumprindo o seu papel social, a Sociedade Brasileira de Urologia desenvolveu um projeto para colaborar na mudança de nossa vergonhosa estatística. Desde o ano passado, passamos a recolher os dados deste tumor no país e confirmamos a prevalência desta doença na região Nordeste e Sudeste. São Paulo encabeça o ranking - até porque tem 40 milhões de habitantes - mas é seguido de perto por Ceará e Maranhão - estados que juntos não têm nem ¼ da população paulistana.
A entidade está realizando um grande movimento nacional, um mutirão de cirurgias de fimose na capital maranhense que detectou seis casos entre os 90 circuncidados; produção de material didático para leigos; capacitação e orientação de agentes comunitários e médicos do programa de saúde da família para trabalharem em caráter voluntário. Nossa intenção é informar a sociedade e colocar o assunto nas pautas das discussões políticas.
Além desta ação, temos o “Comboio contra o câncer de pênis”, no qual um motor-home equipado com TV, DVD com programas explicativos para leigos e uma equipe composta de enfermeiro, agente comunitário e barbeiro coordenados pelos urologistas do Maranhão estão visitando 20 cidades do interior do estado maranhense levando a informação à população carente e focando principalmente na importância da higiene genital.
Este tipo de câncer não acomete uma determinada faixa etária. Há casos em todas as idades e cada vez mais em pessoas jovens com média de 25 anos. O vírus do HPV, transmitido sexualmente, também parece ser uma das causas deste tipo de tumor e pode estar por trás do aumento do número de casos. O tratamento da lesão inicial é simples, sendo feito apenas sua retirada cirúrgica. Entretanto, nas grandes lesões é necessária a retirada de parte ou, às vezes, de todo o pênis.
O câncer de pênis é uma doença que traz vergonha para o país e pode ser combatida de maneira muito simples: com água e sabão. Basta que esta informação chegue a quem dela precisa. O papel é de todos: governo e sociedade civil. De nossa parte, queremos cumprir a nossa missão.
O autor, Aguinaldo Nardi, é diretor da Sociedade Brasileira de Urologia, coordenador Nacional da Campanha de Combate ao Câncer de Pênis e urologista em Bauru