Moscou - Cumprindo ameaça feita após a deterioração de suas relações com Washington, a Rússia anunciou ontem que se retirava do Face (Tratado sobre as Forças Armadas Convencionais na Europa), um dos mecanismos multilaterais de desarmamento pós-Guerra Fria.
Segundo o Kremlin, o presidente Vladimir Putin assinou decreto em que suspende a participação russa no tratado.
Ele foi redigido em 1990 para limitar o número de blindados, peças de artilharia pesada e aeronaves de combate estacionados em território europeu.
O Ministério das Relações Exteriores disse em Moscou que a partir de agora o país deixaria de fornecer informações sobre seus arsenais convencionais e não mais aceitaria a presença de inspetores estrangeiros.
Adiantou, no entanto, que “as portas do diálogo não estão em definitivo fechadas”.
A decisão é uma resposta ao projeto do Pentágono de instalar na Polônia e na República Tcheca, áreas de influência russa nos tempos soviéticos, um escudo antimísseis, que Washington diz procurar conter mísseis do Irã e da Coréia do Norte.
O Kremlin acredita, no entanto, que o dispositivo ameaça seus mísseis nucleares.
O Face não estava sendo plenamente aplicado. Depois de entrar em vigor em 1992 e ser revisado sete anos depois, os integrantes da Otan, a aliança militar ocidental, recusavam-se a ratificá-lo porque a Rússia ainda mantinha contingentes militares na Geórgia e Moldova.
O tratado prevê que um país signatário precisa cumprir um prazo de 150 dias antes de consumar seu afastamento. O governo russo deixou claro que se enquadraria nessa cláusula.
Reação da Otan
Em Bruxelas, sua sede, a Otan lamentou a decisão russa e a qualificou como “um passo na direção equivocada”. O porta-voz da organização, James Appathurai, disse que o tratado permanece “um marco importante para a estabilidade”.
Na Alemanha, o ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, exprimiu sua “grande preocupação” pelo fato de o Kremlin ter decidido abandonar “esse elemento central da arquitetura internacional do desarmamento”.
O vice-ministro polonês das Relações Exteriores, Witold Waszczykowski, qualificou a decisão russa sobre o desarmamento de “desconcertante”.
Yevgeny Volk, da Heritage Foundation, centro de de pesquisas de Washington, lamentou que “a ameaça russa tenha se concretizado” e não exclui que novos passos possam ser dados por Moscou.
“Se não houver um acordo com os Estados Unidos sobre o escudo antimísseis, o governo russo poderá concretizar a ameaça de colocar as grandes cidades européias na mira de suas ogivas.”
A Rússia tem argumentado que seu orçamento de defesa foi drasticamente cortado após a Guerra Fria, enquanto a Otan mantém seus gastos em alta.