O cérebro precisa criar novos neurônios ao longo da vida dos adultos para manter sua capacidade de criar memórias e sustentar a inteligência. A descoberta, anunciada por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, de Baltimore (EUA), saiu de experimentos feitos com tecido cerebral de camundongos em laboratório. O trabalho foi elaborado pelo neurocientista Hongjun Song, que liderou uma equipe com quatro outros colegas chineses emigrados, e consistiu numa tarefa delicada.
O grupo extraiu tecido do hipocampo (estrutura cerebral ligada à consolidação de memórias) dos roedores e preparou culturas de células em placas de vidro para investigar como elas se comportavam. Os cientistas usaram vírus modificados para “marcar’’ com uma proteína fluorescente as células recém-nascidas na estrutura cultivada, facilitando o reconhecimento delas em comparação com células antigas maduras.
Com as células “tingidas” de verde, foi possível separá-las e ver como se comportavam. “Descobrimos que essas células novas são mais plásticas (fáceis de serem mudadas). A plasticidade é um dos mecanismos implicados no aprendizado e na memória”, disse Song.
“Há um período crítico entre um mês e um mês e meio de idade dos neurônios no qual eles exibiam mais potenciação de longa duração (reforço da conexão dos neurônios que sustentam memórias).’’ A descoberta põe fim a uma questão de muitos anos na neurociência, já que não se sabia se o nascimento de novos neurônios no hipocampo estava mesmo envolvido de maneira funcional na memória.
O fenômeno poderia servir apenas para fazer “remendos’’ no cérebro, à medida que neurônios vão morrendo com o envelhecimento. Mas Song mostrou que que não é isso que está em jogo. A neurogênese (nascimento de neurônios) ocorre intensamente no cérebro de fetos e bebês, e desde 1998 se sabe que ela também existe no hipocampo adulto.
Só agora, porém, surgem as evidências físicas para mostrar que ela é necessária até o fim da vida para a memória e para a inteligência. Segundo Song, seu artigo poderá ter impacto no estudo de formas de demência como o mal de Alzheimer.
“Nosso estudo sugere não só que a célula jovem é mais plástica, mas também que ela pode dar mais plasticidade às células antigas’’, afirma. “Ao introduzir células novas -geradas por células-tronco ou outras fontes- pode ser possível tornar a rede de neurônios antigos mais plástica, com mais habilidade para se ajustar a novas condições”, disse.
Segundo o neurobiólogo brasileiro Alysson Muotri, ex-colega de Song no Instituto Salk, na Califórnia, o resultado é mesmo entusiasmante. “Esses neurônios novos são tão plásticos quanto os embrionários - pelo menos por um tempo - e podem dar uma rejuvenescida nas redes neurais onde são provavelmente responsáveis por conectar as memórias no tempo’’, disse. “Mas tenho algumas criticas ao trabalho. A maior delas é que o trabalho é totalmente farmacológico.”
Segundo Muotri, como Song usou drogas em vez de técnicas genéticas para investigar o comportamento dos neurônios, o tecido pode ter sido afetado de maneira generalizada na hora da observação, o que compromete a precisão do resultado.