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Acidente previsível em Congonhas


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Eu nasci e morei ao lado do Aeroporto de Congonhas em São Paulo. Quando criança, me recordo que o movimento naquele aeroporto era tranqüilo e com aeronaves de pequeno porte. Lembro-me bem que as atividades de pousos e decolagens eram interrompidas a partir das 22h diariamente. Aos finais de semana, quando o movimento era ainda menor, meu pai nos levava para vermos as máquinas voadoras que ali chegavam e partiam de forma imponente, rasgando o céu paulistano.

Com o passar do tempo, a ganância foi crescendo junto com a corrupção, a incompetência dos governantes e a necessidade de lucros cada vez maiores das nossas semi-falidas empresas de aviação. O horário então foi alterado para as 23h e liberados os pousos e decolagens de aeronaves cada vez maiores. Recentemente esse horário foi novamente alterado para a 1h.

Nem a construção do Aeroporto Internacional de Cumbica, na vizinha cidade de Guarulhos, nem o acidente trágico ocorrido com uma aeronave da TAM no bairro do Jabaquara, perfazendo um total de 99 vítimas fatais em 31/10/1996, pode alterar ou conter a inércia e a covardia de nossos governantes nas três esferas do poder.

Anteontem, final de tarde chuvosa em São Paulo, início da noite de 17/7/07, e o mais terrível acidente da aviação aérea brasileira acontece, chocando o país, espalhando medo e terror para o já sofrido povo que reside naquela região. Demonstrando que a crise aérea não começou com a queda do avião da Gol do ano passado, tal qual não vai terminar depois de findados os trabalhos de valorosa equipe do Corpo de Bombeiros.

O descaso de nossos governantes não tem fim, não serão duzentos corpos inocentes que farão as coisas mudarem num setor que vem sendo exposto diariamente aos olhos da população. O rei está nu e não tem vergonha de estar assim aos olhos do povo. Nada disso teria acontecido se ao invés de congestionar Congonhas tivessem tido a coragem de reformar aeroportos nas cidades num raio de cem quilômetros de São Paulo, com interligação realizada através de trens modernos. Ao invés disso estamos vendo o caos ganhar proporções inaceitáveis. Assistimos a inércia dos governos estaduais quanto à necessidade de ampliação das linhas de metrô, da indecorosa privatização das nossas estradas de ferro.

Acidentes acontecem e suas causas serão sempre desvendadas por técnicos competentes, entretanto, manter áreas de altíssimo risco numa cidade como São Paulo é caso de policia, é motivo suficiente para que a sociedade vá às ruas e exija mudanças drásticas imediatamente. Chega de conversa mole, ninguém deveria relaxar jamais, como já dizia o poeta nos tempo de ditadura “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”.

Por enquanto, muitas suposições, dor pelas vidas perdidas prematuramente e uma imensa lacuna naquela que já foi uma das mais seguras aviações civis do mundo.

O autor, Rafael Moia Filho, é colaborador de Opinião

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