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Humano: uma reflexão


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Aproprio-me do título de um artigo assinado por Luís Victorelli, publicado no JC, no Science Net, nos idos de 1999. Para minha surpresa, um audacioso acadêmico e jornalista saía de seu reduto para refletir sobre os abusos praticados contra os animais e criticar as propagandas antiéticas do uso da carne para consumo humano. As imagens agradáveis e sorridentes dos bichos estampadas nos produtos não condiziam com seu percurso de atrocidades e sofrimento. Naquele mesmo ano, escreveu outro artigo desmistificando a Ciência e criticando o comportamento de muitos pesquisadores.

Diante disso, o pensamento de Victorelli neste 10/7/07 (Opinião, JC) não mais me surpreendeu. Segue a linha do escritor sul-africano J. M. Coetzee, Nobel de literatura em 2003, que esteve na quinta edição da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), e nos presenteou com trechos de um livro ainda não publicado, Diário de um ano ruim. Em uma das denominadas “opiniões fortes” desta obra, põe a nu a matança de animais, descrevendo uma penosa trajetória até o abatedouro, onde o gado exportado da Austrália para o Egito encontra seu fim, processo todo executado de forma cruel, o que inclui até o corte de tendões para facilitar o manejo. Um repórter documentou as cenas escabrosas. O escritor, Coetzee, com rara sensibilidade, escreveu sobre o assunto.

Sabemos que tal matança não é novidade, tem o aval da humanidade e ocorre em todos os lugares, a diferença é que poucos discutem a validade e os princípios morais desta prática. Ao apresentar sua tese em “A vida dos animais”, o sul-africano classifica os abusos todos contra as demais espécies como um “crime de proporções inimagináveis”, praticados rotineiramente por colegas acadêmicos e seus semelhantes humanos. Propõe o que chama de imaginação simpatizante, de modo a estender a ética à totalidade da vida animal.

Luís Victorelli, neste último artigo, condena a crueldade para com animais em nosso benefício e propõe reflexões para mudanças de paradigma, de modo que tanta brutalidade desnecessária possa, um dia, “tornar-se passado em nossa cadeia evolutiva”. Para se criar um ambiente menos violento para sobreviver, diz ele, bastaria ser inteligente, civilizado e ético. Não é pouco, mas também não é improvável nem impossível, pois o que são estes autores senão isso mesmo?

A autora, Sonia Marques Joaquim, é professora aposentada da Unesp-Bauru

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