Cultura

Sobre mundos: A árvore do bem e do mal

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Depois do almoço, o pai se dirigiu ao filho de doze anos e disse: “Filho, você é totalmente livre. Como você gostaria de passar a tarde? Fazendo as tarefas da escola ou brincando com os amigos? Você escolhe!” O filho então respondeu: “Bom, eu gostaria de brincar com meus amigos”. O pai imediatamente contestou: “Não, não, esta não é a opção correta. Você só deverá sair de casa quando acabar os deveres da escola. Vou perguntar de novo. O que você quer fazer nesta tarde, os deveres da escola ou brincar com os amigos?” Contrariado, o filho olhou para o pai e disse: “Tudo bem, eu escolho fazer a tarefa da escola”. O pai sorriu e disse ao filho: “Estou contente porque você fez a escolha certa!”

Com certeza, todos conhecem a narração bíblica sobre Adão e Eva (Gn 3, 1-24). Entre outras reflexões, esta narração mítica nos ensina que, entre os seres humanos e os outros animais do planeta, existe uma diferença fundamental. Todos os seres vivos se alimentam do que o texto chama de “a árvore da vida”. Em outras palavras, todos os seres viventes possuem fome e sentem sede, crescem e se desenvolvem, se acasalam ou encontram alguma forma de se perpetuar como espécie.

O ser humano, porém, além de se alimentar da “árvore da vida”, experimenta o prazeroso, mas também doloroso, fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Em outras palavras, enquanto os outros seres vivos desenvolvem-se condicionados às leis naturais, o ser humano constrói sua história, transforma sua natureza, define o seu destino. Sem possuírem a capacidade de raciocinar, a vida dos outros seres vivos é muito mais simples, afinal, a natureza para eles já está pré-determinada, sem os problemas morais e as decisões éticas que nós humanos temos de enfrentar.

As categorias de bem e mal na verdade não existem entre os animais. Justamente por isso, a natureza não pode ser idealizada ou romantizada. Nela encontramos, por exemplo, a seleção de espécies, a eliminação de deficientes, a morte dos mais idosos, fenômenos agressivos que podem matar milhões de seres vivos, como maremotos, terremotos, etc. Todos estes fenômenos naturais mostram que as leis de Deus e as leis da natureza não são as mesmas. Nem tudo aquilo que é natural, pode ser considerado, pelos olhos humanos, um fenômeno bom.

Todas as criaturas viventes são vítimas de sofrimentos físicos e estão destinadas a morrer, mas somente o ser humano possui consciência destes fatos e a liberdade de alterar as leis naturais e se proteger das forças destrutivas existentes na natureza aumentando sua qualidade e perspectiva de vida. ”As coisas em si, não são boas nem más. É o pensamento que as torna desse ou daquele jeito” (Shakespeare).

A partir do momento em que o ser humano iniciou o desenvolvimento da consciência racional, ou seja, começou a se alimentar da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, as atividades de comer e trabalhar, ter filhos e criá-los, desenvolver-se e organizar-se em sociedade já não seriam mais coisas simples como são entre os animais. Justamente esta característica de adequar o mundo às suas necessidades e vontades significa teologicamente a expressão “imagem de Deus”.

O ser humano se sente uma imagem semelhante de Deus, pois possui a liberdade para fazer escolhas determinando o que é bem e o que é mal. Esta liberdade não consiste em uma liberdade induzida, na qual nos é determinado o que é bom ou ruim. A pessoa humana, na sua experiência de vida, descobre o que pode lhe trazer mais vida ou conduzi-la à morte. Para isto é necessário que o ser humano assuma a responsabilidade sobre a vida. Se existe um pecado na narração bíblica de Adão e Eva, este não é o fato do ser humano provar da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, mas sim o fato de negar o seu próprio ato humano de escolher.

Quando Deus pergunta a Adão se ele comeu da árvore que Ele o havia proibido de comer, Adão joga a culpa sobre Eva, esta por sua vez, sobre a serpente. Aqui encontramos o pecado da dissimilação, ou seja, o medo de assumir nossos atos e enfrentar suas conseqüências. Como Deus deixou a natureza desenvolver-se gerando suas próprias leis, Deus respeita a nossa liberdade de fazer nossas experiências e aprender com elas. Acredito profundamente que Deus não espera que nós, seres humanos, representemos o papel de “bons meninos” e digamos sem autenticidade “só fiz o que o Senhor me mandou”, mas que sejamos verdadeiramente livres e digamos com responsabilidade “quer o Senhor goste ou não, pensei muito e é isto que considero certo”.

Para refletir melhor sobre nossa liberdade, sobre a condição do ser humano em seu mundo natural e principalmente sobre a presença de Deus em nossa história é interessante saborear o livro “Quando Coisas Ruins Acontecem às Pessoas Boas” de Harold S. Kushner (Ed. Nobel).

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