Um homem sujo, mal vestido, vivendo em condições precárias, sem grandes perspectivas de crescer profissionalmente. Muita gente ainda costuma utilizar as características listadas acima para descrever os trabalhadores da construção civil. O que essas pessoas não sabem é que os tempos mudaram.
Em meio à poeira e ao barro dos canteiros de obra é possível encontrar profissionais extremamente qualificados e bem sucedidos. Há casos (e não são raros) de pedreiros, encanadores, carpinteiros e azulejistas que estudaram apenas até a 8.ª série e, ainda assim, são capazes de obter rendimentos maiores do que os de muitos engenheiros civis.
O bauruense Andrei Francisco Lúcio Maciel, por exemplo, sequer conseguiu cursar o ensino médio. Ele entrou para o ramo da construção aos 13 anos de idade e aprendeu a maioria das coisas que sabe na prática. Hoje, trabalhando como azulejista (especialista na colocação de pisos e revestimentos), ele possui uma renda mensal que varia entre R$ 3.000,00 e R$ 3.500,00.
“Tem engenheiro que brinca comigo: ‘Poxa, você está ganhando mais do que a gente’”, diz ele. Desemprego é uma palavra que não existe para Maciel. Ele vive com a agenda lotada e, dependendo da época do ano, é obrigado a dispensar clientes por falta de tempo.
“Faz anos que não vejo o mar de perto”, afirma. A última vez que ele tirou férias foi em 2002. “Depois disso, não deu mais. Toda hora aparece alguém me procurando para que eu faça algum serviço”, diz.
O carpinteiro Ezequiel Barrios, 35 anos, conhece essa realidade de perto, bem perto. Há 10 anos ele não sabe o que é tirar uma semana de folga. “O único meio de eu ficar parado é se chover sem parar”, garante ele, que vive no Parque Santa Cecília, zona sudoeste de Bauru.
Apesar de haver cursado apenas até a 5.ª do ensino fundamental, Barrios ostenta, hoje em dia, uma renda mensal de R$ 3.000,00, quantia capaz de fazer inveja a muitos profissionais diplomados. “As pessoas pensam que, como não possuímos estudo, temos de ganhar pouco. Ela não sabem que nosso serviço exige muita responsabilidade. Trabalhamos com materiais caros”, explica.
Maciel, por exemplo, costuma manusear, no dia-a-dia, mármores importados que chegam a custar até R$ 800,00 o metro quadrado. “Imagine se eu estragar um produto desses? Esse trabalho é complicado”, pondera ele.
Para evitar erros, Maciel procura sempre se especializar. Como a cidade ainda não possui cursos específicos para formação na área de colocação de revestimentos, ele costuma freqüentar palestras e workshops oferecidos por empresas para poder se aperfeiçoar.
“Sempre surgem novidades no mercado, e a gente precisa acompanhar essas inovações para poder oferecer o melhor ao cliente”, diz Maciel, que mora na Pousada da Esperança, zona norte de Bauru. Todos esses cursos teriam pouca utilidade, caso o azulejista não tivesse uma fama consolidada na cidade.
“O que mais ajuda a divulgar nosso trabalho é a propaganda boca a boca. As pessoas ficam sabendo da qualidade de nosso serviço e vão contando para as outras. Dessa forma criamos nossa clientela”, diz.
A falta de uma clientela consolidada é o motivo pelo qual o pedreiro Agnaldo Francisco Dias, 66 anos, não tem andado muito satisfeito com o mercado da construção civil na cidade. Natural de Condeúbas (BA), ele morou durante boa parte da vida em Araçatuba. “Lá não faltava serviço. Eu conseguia tirar de R$ 2.500,00 a R$ 3.000,00, ao mês, com facilidade”, afirma.
Morando há seis meses no Parque Roosevelt (zona oeste), Dias tem dificuldade para conseguir emprego. “Como não tenho muitos conhecidos na cidade, fica difícil divulgar meu trabalho. Além disso, já estou com a idade meio avançada e nenhuma empresa quer saber de me dar uma chance”, reclama. Ele se mudou para Bauru para poder ficar próximo aos familiares e possui certificados de formação técnica em diversos cursos na área da construção civil.
____________________
Informatizado
Não é à toa que o azulejista Andrei Francisco Lúcio Maciel é tão disputado pelos clientes. Ele é um profissional que está sempre tentando acompanhar as novas tendência do mercado. Freqüenta cursos e palestras oferecidos por empresas, procura incorporar novos equipamentos e técnicas ao seu dia-a-dia e adora pesquisar.
Ultimamente, ele resolveu adotar a Internet como um meio para se aperfeiçoar. “Hoje tudo está na rede. Basta você dar um clique e tudo aparece para você. Se a gente não entrar nessa onda, corre o risco de ficar para trás”, diz ele.
Além de utilizar a web para entrar em contato com novas técnicas e ferramentas, o azulejista quer converter a Internet em um instrumento para divulgar seu trabalho. Enquanto os demais pedreiros se mantêm presos ao velho método “boca a boca”, ele pretende montar um website para que o mundo tome conhecimento de suas “criações”.
Ele acredita que a página, que já está em fase de desenvolvimento, entrará no ar dentro de 40 dias. “Os clientes terão condições de ver meus trabalhos anteriores e de pedir orçamentos por e-mail ou fax”, espera Maciel.