Brasília - O Airbus-A320 da TAM que sofreu um acidente na terça-feira, dia 17, em São Paulo, bateu no prédio da TAM Express a 175 km/h para em seguida explodir. Essa informação faz parte dos primeiros dados retirados da caixa-preta pela NTSB (National Transportation Safety Board), em Washington, EUA. A informação foi repassada a repórteres pelos deputados Marco Maia (PT-RS) e Efraim Filho (DEM-PB), que acompanham os trabalhos da NTSB.
Diferentemente de anteontem, os parlamentares evitaram comentar o significado desse dado perante a investigação - se ele indicaria que o piloto tentou frear a aeronave em vez de arremeter, por exemplo.
De acordo com os deputados, no momento em que tocou a pista o avião estava entre 240 km/h e 222 km/h. Na hora em que bateu no prédio da TAM Express, estava a 175 km/h.
Anteontem pela manhã, Efraim chegou a afirmar por telefone a algumas rádios e sites brasileiros que as primeiras análises da caixa-preta mostravam que o piloto do Airbus não tinha tentado arremeter. Entretanto, posteriormente, ele recuou.
Tanto a caixa-preta que grava as conversas no interior da cabine da aeronave quanto a que contém dados do vôo - como altitude e duração - estavam em perfeitas condições. Finda a fase de extração das informações - não todas, mas as que interessam -, os técnicos da NTSB passarão à padronização e à sincronização dos dados dos dois equipamentos. No Brasil, deve ser montada, a partir dessas informações, a reconstituição do acidente.
O chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), Jorge Kersul Filho, disse ontem que o Airbus-A320 da TAM pousou no aeroporto de Congonhas (SP) dentro da velocidade prevista normalmente pela Aeronáutica. Kersul disse que não dá para determinar a velocidade da aeronave no momento do pouso, mas confirmou que ela estava a 175 km/h no momento em que colidiu com o prédio da TAM Express. “Eu disse que ele bateu a 175 km/h. A informação que eu tenho, e não tenho medo de dizer, é que ela estava dentro dos padrões para aproximação e pouso. A aeronave colidiu com caixa de concreto na lateral da pista, e depois bateu em coluna”, afirmou.
O brigadeiro disse que o fato da aeronave estar inclinada no momento do acidente não contribui para facilitar as investigações sobre a causa do choque. “O fato de estar um pouco inclinada não diz muito por enquanto, não é fato relevante. Eu não posso induzir uma coisa que não possa comprovar”, afirmou.
Kersul Filho disse também que a Aeronáutica não vai tornar públicas as causas do acidente com o Airbus da TAM nem o conteúdo das gravações da caixa-preta da aeronave durante as investigações. “Não vamos dizer a causa porque nenhum acidente advém de um único fator. Os dados não serão divulgados porque fazem parte da investigação”, enfatizou.
Segundo o brigadeiro, a legislação brasileira determina que as informações sobre a caixa-preta sejam restritas à CPI do Apagão Aéreo e à comissão que investiga as causas do acidente. “Quando somos obrigados a entregar parte das investigações, estamos colocando a pessoa que nos deu as informações produzindo provas contra ela mesma”, argumentou.
Kersul acredita que a transcrição dos diálogos dos pilotos no momento do acidente, após a análise da caixa-preta nos Estados Unidos, chegarão ao Brasil na próxima sexta-feira. Ele disse que as aeronaves brasileiras operam dentro das limitações das pistas - e não os locais de pouso devem ser adaptados às aeronaves. O brigadeiro não quis opinar sobre as eventuais causas do acidente com o Airbus-A320 da TAM. Kersul afirmou que a aeronave estava capacitada para operar com apenas um reverso (sistema de frenagem do avião). “O avião para operar em Congonhas tem que ser capaz de pousar e parar no local disponível sem a utilização do reverso. A aeronave também está homologada para operar somente com um reverso”, afirmou.
Segundo o brigadeiro, a determinação da Aeronáutica de fechar a pista de Congonhas em dias de chuva é uma medida de cautela - e não um sinal de que a pista contribuiu para a tragédia. “Não temos condições de afirmar que a pista contribuiu (para o acidente). Fomos conservadores ao sugerir que os órgãos responsáveis evitem a operação daquela pista enquanto estiver molhada até que tenhamos novos parâmetros.”
O brigadeiro disse, ainda, não ser capaz de garantir que outros acidentes aéreos não ocorrerão no País. “Ninguém é capaz de garantir que não teremos mais acidentes. Se identificarmos que houve uma falha no sistema de freio do avião (Airbus), não precisamos terminar a investigação para emitir uma recomendação”, afirmou.
Prazo
O chefe do Cenipa estima que as investigações da Aeronáutica sobre o acidente com o avião da TAM estejam concluídas em dez meses. “Temos a esperança de terminar a investigação desse acidente em prazo um pouco menor. Estimamos que o relatório final da investigação seja de dez meses, o que na nossa visão está dentro de um prazo razoável”, afirmou.
Segundo o brigadeiro, o acidente com o Boeing da Gol - que ocorreu em outubro do ano passado - deve ter suas investigações concluídas no prazo de 12 meses. “Na média internacional, uma investigação desse nível é da média de 18 meses. Esperamos concluir as investigações da Gol em 12 meses, o que é razoável. Já fizemos cinco reuniões com familiares da Gol para supri-los com informações que não prejudicam a investigação”, disse o brigadeiro.
As investigações da Aeronáutica não deverão indicar os responsáveis pelo acidente. Um outro inquérito, aberto pela Polícia Federal, é que deverá apontar os culpados.
Kersul disse que o Cenipa pode ajudar as famílias a entenderem as causas dos acidentes, mas não é o órgão capaz de apontar culpados. “Se elas querem entender o que aconteceu naquele dia, o Cenipa é o lugar certo. Mas o que o Cenipa tem não serve para mais nada a não ser o que se passou. Não temos condições de ajudá-las para indenização e outras coisas. Se o objetivo é Justiça, culpa, responsabilidade, o local não é o Cenipa”, ressaltou.