“Do jeito que me contaram, eu fiz a moda certo na letra num bar grã-fino de Pederneiras/ Chegou Gilberto numa lambreta, no meio da ‘peãozada’ contou vantagem e até fez desfeita: Sou campeonato nesse motor que sobe montanha e faz pirueta.” Vou contar que esse Gilberto eu conheci, em tom de sertanejo raiz cantado, pelos irmãos César e Paulinho nos idos de 1973.
O Gilberto que corria de lambreta e na letra da música, gravada em uma fita cassete, perde o páreo para um cavalo de crina preta, na verdade era um vencedor movido à velocidade. Motociclista há 45 anos, Gilberto Dario corria de lambreta pelas ruas de Pederneiras e de outras cidades da região.
Foram cerca de 20 provas das quais seis renderam o primeiro lugar. A lambreta de Dario era famosa, em verde e branco estampado o número “44”, fez escola entre 1966, quando disputou com 15 anos a primeira corrida, e em 1974, quando abandonou a o espírito lambreteiro, mas não o motociclismo.
“Era uma dureza, eu usava a lambreta a semana toda para trabalhar e no sábado à noite ‘depenava’ a moto para poder correr no domingo”, conta Dario. Para a corrida, a lambreta perdia a maior parte da lataria para que o peso diminuísse e o motor era preparado. “Nós vínhamos para a pista de madrugada treinar com o ‘escapamento aberto’”, diz o corredor.
Não se contentando com as disputas na região, Dario resolveu promover as competições de velocidade em circuito de rua para lambreta em Pederneiras. Foram dez corridas que reuniam motociclistas e motoqueiros das cidades vizinhas. Porque, explica o motociclista e lambreteiro, motoqueiro é aquele que faz baderna e arruaça e motociclista é o conservador.
Ainda falando sobre os circuitos de rua, Dario vai despejando histórias como a da prova mais difícil que disputou. “Foi em Jaú, dia 17 de agosto de 1969, 45 voltas pelas vias da cidade e eu larguei em primeiro. Durante toda a corrida o segundo e o terceiro colocados ficaram colados em mim, eram só dois metros de diferença. Ganhei, foi esse troféu aqui.”
O veterano das duas rodas, apaixonado pela estrada e pela velocidade desde os 14 anos, quando subiu pela primeira vez uma lambreta, ao visitar os parentes em São Paulo, agarra uma taça da estante recheada. “Nem te conto o que nós bebemos neste caneco naquela noite para comemorar”, termina.
Dario, prestes a completar 60 anos, parecia predestinado às motos. Ele nasceu no dia 27 de julho, Dia do Motociclista, mesma data que ele escolheu para fundar o motoclube Anjos da Pedra, em 1995. O clube reúne 35 motociclistas de Pederneiras, Lençóis Paulista e Macatuba, as reuniões não poderiam acontecer em um lugar mais apropriado: um posto de gasolina, sempre nas noites de sexta-feira.