Tribuna do Leitor

Águas passadas movem moinhos


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Nova Europa é uma pequena cidade localizada entre Ibitinga e Araraquara. Seu nome advém da imigração européia, principalmente a alemã, possibilitando que a maioria de seus 8000 habitantes possuam uma tez um tanto quanto alourada. Nesse pacato recanto eminentemente agrícola, nasceu, cresceu e partiu. Fez a vida toda longe dali e agora retorna, um filho da terra, o chargista político Antonio Carlos Nicolielo, ou Nicolielo. Lá ele passou boa parte da juventude, tendo o primeiro ensaio de partida da cidade, ainda nos anos 60,quando tentou ser beque da Ferroviária de Araraquara. Foi uma curta experiência, pois segundo ele mesmo afirma: - Era difícil a convivência. Jogador não lê nada e eu queria cada vez ler mais. Não era a mesma praia. Parei, mesmo jogando muito bem.

O retorno não durou quase nada. Logo estava de malas prontas para olado oposto, Bauru, onde foi estudar Direito. Começou sua atividade profissional por lá, sendo um dos fundadores do Jornal da Cidade, onde publicou sua primeira charge, em 1967. Fez nome em Bauru, mas a cidade acabou ficando pequena demais para ele. Caiu no mundo e não se arrependeu. Foi para a capital e daí em diante não parou mais e não mais saiu de dentro das redações de importantes órgãos da imprensa nativa.

Iniciava a trajetória de sucesso, já chargista político dos jornais Diário de São Paulo e Diário da Noite. Foi também ilustrador e capista da revista Visão, ao mesmo tempo em que ilustrava para Status, Folha de São Paulo, Folha da Tarde e da experiência paulista de O Pasquim. Participou de inúmeras exposições, tanto no Brasil, quanto pelo mundo afora. Conviveu com cobras como Aloísio Byondi, Mário Sérgio Conti, Boris Casoy e todos os do traço. Afirma ter sido um dos poucos chargistas que participava de reuniões de pauta, o que causou ciúmes entre muitos colegas de pena: - Sempre li muito e meus desenhos exprimiam isso. Quando pegava um texto para ilustrar, nunca me prendi ao óbvio, indo muito além. Saia uma verdadeira interpretação, que o completava. Sempre foi meu diferencial.

O seu sucesso atravessou fronteiras e, assim, um dos pioneiros a publicar no fechado mercado editorial norte-americano ao qual envia charges até hoje, pois continua artista contratado do Cartoonist & Writers Syndicate e New York Times Syndicate, que distribuem seus trabalhospara mais de 150 jornais do mundo. Vive disso e aqui no Brasil, do repasse diário de uma charge, que produz sempre até às 18h, com distribuição para mais de 100 jornais, dos quais nem lembra direito o nome. Para chegar nesse patamar atual, a trajetória foi de muita luta,disposição, dedicação e, claro, talento, de quem mergulha de cabeça no que faz. Paralelo a isso, formou as duas filhas, construiu umpatrimônio e, separado da esposa, fugiu do rush das cidades grandes, morando por uns tempos em Três Lagoas MS, de onde se mantinha plugadono mundo. Por lá, começou esse negócio de pintura em telas, um filão e dele não se separou mais.

Continua a produzir charges, mas, a de telas ganhou boa parte do seu tempo. São as tais “caricatelas”, mostrando um artista muito bem focado no seu dia-a-dia. A criação artística do Nicolielo surge quase totalmente da observação do cotidiano, uma pelada, um casamento caipira, gente em torno de uma mesa de bar e música numa praça. Desde que a galeria paulistana Marcelo Neves, que tem exclusividade sobre suas telas o contratou, ocorre uma nova guinada em sua vida.

Foi tudo muito rápido e o retorno definitivo para Nova Europa se deu há exatos três meses, tudo ainda um quanto tanto desarrumado. A casa, bem em cima da agência bancária da NCNB desocupada há anos e o sítio da família (dele e de mais dois irmãos), localizado a “distantes” 400 metros, precisava de gente por perto. Ou seja, aquele carinho, que só o dono sabe dar. Até o alambique da Cachaça Nicoliello havia sidofechado por falta de quem cuidasse. Hoje, circula por tudo o quanto é lado de bicicleta, cria seus bichos, continua viajando muito e quando para na cidade, distribui a preços módicos os restantes 18.000 litros da premiada cachaça: - Essa é mesmo da boa. Não conheço quem tenha ficado mal bebendo dela. Recebeu até uma premiação tempos atrás.

Seu ritmo atual é o da tranqüilidade, acorda tarde, pois tem o hábito de trabalhar até as 4h, 5h da manhã. “Não me peçam para fazer nada pela manha. É quando durmo”. O resto do dia lê muito, de livros a jornais. Possui quase tudo a respeito de quadrinhos e charges, daqui e de fora. Sua biblioteca faz inveja a de muitas cidades. Tranqüilo afirma: “Isso tudo vai acabar ficando por aqui mesmo”. A vida não é nada modorrenta, pois virou uma espécie de celebridade, sendo chamado para tudo quanto é tipo de festa.

Atualmente traça um esboço para um memorial da cidade e possui ótimo tramite com o poder municipal: “Dia desses o scanner da Prefeitura quebrou e o prefeito pediu para mim um favor. Fiz o trabalho e doei o aparelho, pois tinha acabado de comprar um mais atual”. Do lado de sua casa, o banco conta com 24h de segurança e quando resolve sair para o quintal no meio da noite, sempre acompanhado da inseparável gata de estimação, o vigia do banco torna-se um ótimo papo. Durante o dia, o Projeto Guri ensaia 90 crianças na casa do lado e costumeiramente é convidado a opinar sobre o desempenho dos alunos, como dessa vez, numa apresentação na praça, logo em frente.

Enfim, seu tempo está sempre ocupado. Quando ligam da galeria, fala com o futuro cliente, através de uma câmera, acertando no ato os detalhes da tela encomendada. Um luxo que suou muito para conquistar. Vende tudo o que produz, mas sua arte ainda não está muito bem definida. Uns a denominam de näif, mas ele entre risos a define como “näif com griffe”, invenção de um amigo artista plástico. A igreja da praça central cheia de gente é o tema da atual tela. Desfruta disso tudo da melhor maneira possível, tanto que aos 59 anos está prestes a voltar bater uma bolinha com amigos da mesma faixa etária. Não se sente nem um pouco só e faz do calor humano que recebe de todos, o seu recarregador de energias perdidas. Recebe muita gente por lá.

Quem já avisou que está prestes a chegar é o amigo Ignácio Loyola Brandão, que no próximo retorno para sua Araraquara prometeu aportar por lá. Outro que tem viagem agendada é o também escritor Mário Prata. Quando isso acontece, costuma ceder o quarto da casa (ou vão todos para o sítio), pois perdeu o costume de dormir em colchão. A casa possui vários lugares onde instala suas redes e desde que passou a dormir nelas, não teve mais problemas de coluna: - Já viste índio com problema de coluna? Por falar em solidão, toca seu celular e ele corre para o MSM. É a namorada, distante uns 3.000 km. Liga a Internet por rádio e esquece da vida. Resolvo sair de fininho, levando comigo 4 litros da tal cachaça.

Henrique Perazzi de Aquino

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