Pesca & Lazer

História de pescador: Caçada mal sucedida – Parte 2*


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Sempre tive medo do escuro e agora sozinho lembrava-me dos pensamentos fantasiosos de Saci Pererê, mula-sem-cabeça e assombrações que afloram junto às minhas recordações, parecendo querer provocar-me uma recaída nessas crendices infantis do passado, desconsiderando minha idade de pai.

Folhas balançando ao sabor do vento, roçando umas às outras, causavam-me a impressão de mãos espalmadas, aplaudindo meu isolamento naquele ambiente, eternamente úmido, escuro e hostil, do interior no maior conglomerado verde do universo.

Naquele antro silencioso e distante, morcegos passando velozes, tão perto de minha cabeça, a ponto de sentir o ar deslocado pela velocidade de seus vôos rasantes. Corujas piando lúgubres davam àquele ambiente uma sensação de velório, capaz de alterar o comportamento de qualquer “machão”.

No instante em que tais recordações deixavam-me mais nervoso, ouço barulho de gravetos secos, quebrando-se ao peso de algum animal maior, como o de uma onça, tirei condições de abatê-la, tremendo como estou?

No instante de me virar em direção à bulha, o cano comprido da carabina bate num galho mais grosso, fazendo tamanho barulho, espantando o invasor, que fugiu de imediato, causando-me agradável situação.

Não suportando mais aquela expectativa, resolvi chamar meu companheiro:

“- Etelvino...” Não obtive resposta. Disparei dois tiros e tudo silêncio. Já apavorado, tentei me acalmar e nada melhor do que pensar mal do governo e evocar acontecimentos passados, quanto mais trágicos melhor.

Tentei lembrar-me das pessoas que deixaram saudades, e das que não me fazem falta, deu certo, fiquei desperto de vez. É interessante como nossas mentes funcionam às situações de isolamento, principalmente quando nos encontramos em lugares sombrios, estranhos e aparentemente perigosos.

O medo, a princípio nos atinge na forma branda, de uma cisma; não havendo um autocontrole, para sustar seus efeitos deletérios e progressivos, transformar-se-ão em pavor.

Já sentindo esses sintomas eu ligava e desligava a lanterna a breves momentos, vasculhando os derredores que me intimidavam.

Distante de nosso acampamento, como faria? Não sei pilotar nem aonde o barco se encontrava. Fui me aproximando do jirau e não via meu companheiro. tornei a chamá-lo e nenhuma resposta, meu coração disparou. Engatilhei a carabina, girei 180 graus entorno de mim mesmo e não vi nada de anormal.

Tenho de chegar até o local, daqui não dá para enxergá-lo; minhas pernas estão bambas, mal suportando o peso de meu corpo, seja o que Deus quiser. De onde estava, ainda não dava para vê-lo. Levei um susto quando vi seu chapéu caído debaixo do estaleiro. Chamei-o novamente e nada de resposta.

Agora sim, já dava para enxergar melhor. Aproximei-me e levei tamanho susto ao ver seu chapéu e uma garrafa vazia no chão, bem debaixo de seu estaleiro. Dei mais alguns passos e lá estava ele, em profundo sono etílico.

Melhor assim, pensei. fosse algo mais grave, como eu faria? Não sei onde está o barco. No outro dia, despedimo-nos e seguimos em direção a Manaus.

Felisdeu Leão é pescador e contador de histórias.

* Trecho retirado do livro “Transamazônica”, no prelo.

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