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Vida mansa em meio aos túmulos

Da Redação
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Trabalhar em cemitério, para muitas pessoas, já não é uma atividade agradável. Morar no espaço então, menos ainda. Mas não para sete famílias que vivem no Cemitério Parque Jardim do Ypê, em Bauru, onde também trabalham. Apesar de, às vezes, ao informar o endereço, sentirem reação de estranheza, elas defendem que o lugar é muito calmo e bom para se viver.

Há cinco anos morando em uma das casas construídas pela direção do cemitério, José Ribamar Martins, 29 anos, aponta os benefícios do seu serviço. Além de não cobrar aluguel, a empresa paga as despesas de água e luz. “Morei seis meses de aluguel, sei o quanto é difícil”, lembra ele que migrou da cidade de Marco, interior do Ceará, para Bauru.

Ele garante que não tem medo de viver com centenas de lápides por perto. “Os únicos vizinhos que eu tenho estão sempre deitados”, responde apontado para os túmulos. “Aqui é mais sossegado que na vila. À noite é tudo muito calmo”, observa ele.

Talvez refira-se à paisagem. Os pinheiros, uma das espécies de árvores que cercam a área, exalam um odor agradável, que pode ser sentido por quem caminha entre os jazigos do cemitério-jardim. José Ribamar mora no cemitério com os três filhos e a esposa.

“Minha mulher sentia medo de ficar sozinha em casa, no início. Eu falava para ela que morto não faz nada; os que fazem mal são os vivos”, lembra-se ele que coordena os demais funcionários.

A opinião é compartilhado por outros moradores do cemitério, como Cleiton Lourenço, 32 anos, que realiza, entre outros serviços, sepultamentos e exumações. “Tem que ter medo de quem está vivo”, opina depois de 11 anos de experiência no silencioso Cemitério Jardim do Ypê, um espaço de três alqueires localizado no Parque das Nações.

Sem medo

Também trabalha e mora no local Francisco Gileno Silva, 23 anos. Entre outras funções, ele faz a irrigação da grama do cemitério.

“Às vezes molho pensando: será que a pessoa ia gostar que eu fizesse isso, ou não?”, diz coçando a barba e olhando para os lados. Ele mora no cemitério há dois anos com sua mulher. “Até agora não sofri discriminação, só admiração”, diz referindo-se à reação das pessoas quando ele dá o seu curioso endereço. “Sempre perguntam: Você não tem medo? Puxa vida, que coragem!”, observa orgulhoso.

Francisco foi indicado para o trabalho por César Neves, que também migrou do Ceará para Bauru quando o Cemitério Parque Jardim do Ypê era filial de uma empresa de Fortaleza. À medida que precisava de mais funcionários, ele procurava moradores de Marco, sua cidade natal, para trabalhar em Bauru.

“Uma vez me disseram: Em cemitério, só mora morto! Você tá morto, pô?”, recorda-se César, referindo-se a um dos comentários brincalhões que já ouviu sobre o assunto. Por 12 anos, ele morou em uma das casas do cemitério. “Agora consegui a minha, em outro lugar”, conta, comentando sobre sua casa própria em outro bairro.

O Cemitério Parque Jardim Ypê, que é particular, foi inaugurado em 1971 e possui mais de 8 mil corpos sepultados.

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Histórias de arrepiar

Apesar de apreciar que os outros admirem a sua coragem, o morador e funcionário do Cemitério Parque Jardim do Ypê Francisco Gileno Silva descobriu que sua valentia também tem limite. Ele relatou um momento de aflição pelo qual passou quando descia do portão do cemitério até a sua casa de bicicleta, com a sua mulher.

“Estávamos descendo a passagem entre os túmulos quando olhei para baixo e vi uma luz saindo do meu pé, enquanto estava pedalando. Fiquei assustado, pensei que fosse coisa do outro mundo. Mas depois de sentir o cheiro de queimado, descobri que era a sapatilha do breque da bicicleta que havia pegado fogo”, conta.

Outro morador, José Ribamar Martins, valoriza a paz durante as noites no cemitério, mas lembra-se que nem todas foram assim. Numa delas, ele estava caminhando cabisbaixo em direção ao portão do cemitério quando levantou a cabeça e levou um grande susto.

“Eu vi que tinha uma pessoa parada no meio do caminho e achei que estava olhando para mim. Meu coração parecia que ia sair pela boca, mas fui de encontro a ela porque queria desvendar o mistério. Quando cheguei perto, vi que era uma pequena árvore! Fiquei com tanta raiva que arranquei ela na hora”, lembra-se.

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