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Energia e crescimento


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Quarta-feira desta semana, na minha coluna da Folha de São Paulo, fiz um comentário sob o título “Conseqüências”, tratando da questão energética, quando procurei mostrar o engano das pessoas que se opõem à construção de hidrelétricas, acreditando que estão defendendo a preservação do meio ambiente e o bem-estar das populações mais pobres que eventualmente tenham que se deslocar das margens dos rios. O título do artigo se refere exatamente ao fato que a ação dos “ambientalistas”, atrasando as obras das usinas em Rondônia, recentemente, tornou-se o exemplo mais flagrante das conseqüências não intencionais de ações bem intencionadas, pois o déficit da oferta da energia limpa do rio Madeira vai ser coberto com a oferta de energia suja das termelétricas de petróleo.

Suspeito que, pela reação que colhi da maioria dos leitores, nossos “ecologistas” que se opõem às hidrelétricas logo receberão troféus de sugismundos e retrógrados, pois além de ajudarem a poluir o ambiente, evitam que as populações mais pobres (próximas ou distantes das margens das represas) recebam a luz elétrica barata em suas casas. Isso porque há uma relação muito estreita entre o crescimento da economia (mais emprego, mais renda, melhoria do bem-estar) e o consumo de energia. Tudo é energia. A própria “força de trabalho” é a conversão da energia dos alimentos que o cidadão consome (que é, por sua vez, produto da energia para produzi-los). A quantidade de energia de que dispomos na natureza é constante: não pode nem ser criada nem destruída. Os homens apenas aprenderam a controlá-la em benefício do aumento da sua produtividade.

Trata-se de uma fatalidade termodinâmica que não pode ser alterada por nenhuma pajelança por mais politicamente correta que seja. Energia e desenvolvimento são os dois lados indispensáveis, umbilicalmente ligados, de uma mesma possibilidade: melhorar o bem-estar da sociedade. O que depende de nossa decisão é escolher a melhor forma de organizar a energia dispersa na natureza para pô-la à nossa disposição. E é mais do que evidente que a energia hidro-elétrica - quando pode ser obtida - é a mais conveniente: é renovável, é limpa e consome muito pouco do que em breve será uma das “commodities” mais raras do mundo, porque seu consumo cresce exponencialmente e sua oferta é fixa: a própria água.

O bárbaro “apagão de 2001”, a maior demonstração de incompetência de qualquer governo brasileiro - desde a expulsão de José Bonifácio em 1823 - destruiu a grande vantagem comparativa que o Brasil tinha na sua matriz energética. Em desespero e sem alternativa, começamos a super-enfatizar as termo-elétricas (necessárias numa matriz harmoniosa) e vamos terminar nas átomo-elétricas, com custos marginais crescentes e prejuízos maiores para o meio ambiente.

Quando se atrasa as hidro-elétricas, deixamos de produzir a energia limpa e renovável que reduziria a poluição das habitações pobres que utilizam a madeira, o querosene e às vezes o estrume para produzir a energia que necessitam para a sua sobrevivência. Quando essa energia é produzida pelas termo-elétricas tal redução é anulada pela sua própria poluição ambiental. É um bom exemplo das conseqüências não-intencionais de ações bem intencionadas mas mal informadas.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-deputado e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@uol.com.br

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