Entra década, sai década, sempre se fala no desaparecimento de algumas profissões. Nesse grupo dos ameaçados de extinção é comum encontrar as costureiras e os alfaiates. Se, muitas vezes, as projeções pessimistas costumam se confirmar na prática, no caso específico das que se referem aos trabalhadores autônomos do ramo da confecção a história tem sido um tanto diferente.
A primeira vez que o alfaiate bauruense Maciel Ortiz, 82 anos, ouviu dizer que seu “ganha-pão” estava prestes a se extinguir foi há mais de 15 anos. “Se bem me lembro, foi numa reportagem exibida pela televisão”, diz ele, que mora no Jardim Brasil (região central da cidade) e está há 68 anos no mercado.
Na época em que o alfaiate soube da notícia, o Calçadão da rua Batista de Carvalho nem existia, a Catedral do Divino Espírito Santo sequer havia sido remodelada e o Skinão ainda podia ser avistado da porta do estabelecimento onde ele trabalha, na quadra 9 da avenida Rodrigues Alves (hoje a lanchonete está instalada próxima à praça Portugal, na zona sul de Bauru).
No anos que se seguiram a isso, Ortiz teve a oportunidade de ouvir dezenas de outras previsões a respeito da atividade que exerce, nenhuma delas muito otimista. Nesse meio tempo, profissões que antes eram consideradas essenciais à sociedade, como datilógrafo e telegrafista, simplesmente sumiram do mapa.
Alfaiates e costureiras, ao contrário, além de resistirem às transformações do mercado, ainda conseguiram expandir sua área de atuação. Estimativas do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Vestuário de Bauru e Região apontam que, atualmente, o ramo da confecção se converteu em fonte de sustento para mais de 800 pessoas na cidade.
Embora seja uma quantidade expressiva, é provável que, em décadas anteriores, o setor tenha empregado um número maior de trabalhadores. Em épocas áureas (anos 40 e 50), por exemplo, Maciel Ortiz chegou a ter oito funcionários sob sua batuta na Tesoura de Ouro.
Hoje, porém, ele não pode se dar ao luxo de contar com ajudantes, pois o negócio já não se mostra tão rentável como no passado. Solitário - mas nem tanto, já que, volta e meia, sempre surge algum cliente das antigas para fazer uma encomenda -, o alfaiate dedica horas e mais horas à complicada arte de criar roupas masculinas.
“Para te falar a verdade, eu já poderia estar aposentado, mas é que gosto de vir à alfaiataria. Toda hora aparece algum amigo querendo colocar a conversa em dia, e isso me ajuda a passar o tempo”, explica ele, que demora cerca de dois dias para confeccionar um terno completo.
Novos rumos
O avanço das grandes indústrias e das lojas de roupas feitas, fatores muitas vezes apontados como responsáveis pela extinção dos alfaiates e das costureiras, têm, na verdade, ajudado a ampliar o campo de atuação desses profissionais. Quem se adapta à nova realidade acaba conseguindo obter bons lucros no dia-a-dia.
Em vez de bater de frente, profissionais autônomos e proprietários de pequenas confecções têm estabelecido uma espécie de parceria com as grandes empresas. Costureiras e alfaiates já não querem mais saber de fabricar roupas para concorrer com a indústria.
Cientes de que ficariam em desvantagem no embate, eles tentam levar ao público um atendimento personalizado que as grandes empresas (pela própria natureza que têm) jamais poderiam oferecer.
Atualmente, é possível dizer que a maior parte das pequenas confecções existentes em Bauru subsiste graças aos serviços de ajustes e de conserto de roupas. “A indústria não é capaz de fazer uma calça ou uma blusa que fique bem em todo mundo. Sempre haverá algo faltando ou sobrando na peça - e é nessa hora que o trabalho da costureira se torna necessário”, avalia Alexandra Petelinkar, 36 anos, que atua no ramo há 11 anos.
Essa tendência se tornou, inclusive, um meio de sobrevivência até para alguns alfaiates. Hoje, não há loja de roupas masculinas na cidade que não conte com pelo menos um profissional especializado em realizar ajustes em calças e paletós.
Atividades de caráter mais artesanal (o patchwork e o bordado em pedraria são exemplos) também rendem bons lucros para aqueles que trabalham no ramo da confecção. Com apenas R$ 1,00, preço de um pacote com cerca de 1.000 bolinhas coloridas de plástico, é possível se incrementar uma blusa de R$ 6,00, fazendo com que seu preço salte para R$ 25,00. Há casos, ainda, de costureiras na cidade que conseguem comercializar almofadas fabricadas com retalhos por até R$ 150,00.