Se alguém me perguntar onde eu gostaria de ter nascido, eu diria que nesta mesma cidade de Bauru, na mesma casinha de mutirão, filho dos mesmos pais, continuando conterrâneo e amigo das mesmas pessoas de hoje. Tive uma infância feliz, descalço pelas calçadas, tomando banho de chuva no quintal de casa e passando férias escolares na casa de famílias amigas, que ajudaram meu pai me educar, após o falecimento de minha mãe.
Sou brasileiro e bauruense com orgulho, mas está ficando difícil continuar assim, pelos últimos acontecimentos políticos que abalam o Brasil e abalaram principalmente Bauru. Quando ainda na escola primária eu ia a Campinas passar férias na casa de meus tios, discutia com meus primos sobre qual era a cidade mais desenvolvida e mais bonita, se Bauru ou Campinas. Pra fazer raiva aos meus primos, eu citava Jose da Silva Martha e Luiz Gonzaga Bevilaqua, como meus ilustres conterrâneos. Eu dizia que João Batista Martins Coube era o maior e mais importante empresário do ramo gráfico do país e que os papéis vendidos a Campinas eram na verdade, folhas de seda.
Os Campineiros ficavam “p....da vida” comigo. Eu apresentava João Simonetti como o mais importante pioneiro da comunicação em nosso Estado, Rodrigues de Abreu como o mais famoso poeta e Antonio Eufrásio de Toledo como o mais famoso e conceituado professor e reitor da ainda hoje tradicional - Instituição Toledo de Ensino. Padre Van Del Hust como um dos filantropos mais importantes e inteligentes da Igreja. Pra fazer mais raiva, eu dizia que quem mandava na política era o engenheiro, empresário e também deputado Alcides Franciscato, tamanha sua influência e representatividade.
Hoje, se eu voltasse para Campinas, é provável que meus primos campineiros, orgulhosos que são, zombassem de mim, dizendo que, nos últimos tempos, Bauru tem dado ao Estado e ao Brasil, somente políticos de difícil apreciação, salvo uma raríssima exceção. Não quero aqui discutir se alguns deles são ou não são desonestos, mas lembrar e lamentar o que a imprensa diz e propaga. Não adiantaria eu continuar falando nos vultos históricos, no poeta, no jurista, no literato ou no padre da Igreja Católica, pois, iria me tornar ridículo.
Quando eu falasse neles, eles iriam falar no viaduto inacabado,na ponte Airton Senna, que faz o falecido se mexer no túmulo cada vez que seu nome é citado em referência à dita ponte. Entre outras mazelas e barbáries a qual nossa cidade foi vítima. Se eu falar no Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro, na Isadora Busch, revelação do tênis nacional, no escritor Lucius de Mello, em João Carlos de Almeida (João Bidú), como o mais respeitado radialista, astrólogo e empresário; Damásio Evangelista de Jesus, jurista renomado, autor de várias obras na área da jurisprudência, iriam me lembrar dos crimes políticos que aqui aconteceram e que vira-e-mexe é preciso combater, pois a raiz insiste em querer brotar, no analfabetismo, nas epidemias de dengue, nos assaltos e na frustração que foi a campanha de nosso querido Noroeste.
Bauru hoje é outra, diferente daquela que eu defendia quando criança com base em livros que eu lia e ainda leio com muito prazer e devoção. Aqui já tivemos rombo na Prefeitura, na Secretaria de administrações, na merenda escolar, tentativa de entregar uma empresa municipal como pagamento de financiamento de campanha, ponte superfaturada, que depois de entregue demorou dois anos para poder ser utilizada, Assessora de vereador que tinha que pagar para trabalhar, com ex-prefeito e ex-vereador presos por corrupção.
Se eles são desonestos, como dizem os jornais, algumas pessoas, as televisões e as rádios, e ainda assim, continuarem na vida pública com votos recebidos pelo povo da cidade, nós é que ficamos com a fama de “um povo trambiqueiro” e que não possue mais motivo para se orgulharem da sua terra, povo sem esperança em uma cidade pela qual não se tem nenhuma gratidão ou uma “rapa” de amor no fundo do coração.
É preciso vivermos ou voltarmos a viver, no que o nosso querido Roberto Rufino da Silva, conceituado colunista social de nossa cidade, chama de “Baurísmo”, que pode ser definido como um estado de espírito em relação à cidade em que se vive e a todas as características singulares de Bauru, desde o sincretismo religioso, a energia dos universitários, a cordialidade, o respeito e experiência dos mais vividos.
Luiz Alfredo Rodrigues de Sant’ Anna - RG 45.480.801-X