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Sobre patrimônios


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O sanduíche bauru é patrimônio com direito a receita publicada até no Diário Oficial. Parabéns àqueles que batalharam para transformar a idéia em realidade. Dentre eles estava minha amiga Luciana Gonçalves Bergamini. Os conhecidos dizem que tudo que ela põe a mão dá certo. Quando vejo a menina do dedo verde à frente de um evento penso em uma frase de Anais Nin: “a vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo.” Por causa da Lu vejo o mundo sempre em expansão! Mas, falando em Anais, preciso contar que fui à festa para degustar a iguaria levando comigo a escritora Deborah Pádua Mello Neves. Soube naquela noite que tem um texto dela sobre o sanduíche no cardápio do Ponto Chic, em São Paulo.

Vivi um bom tempo em Sampa, onde fiz muitos amigos. Alguns eu soube, desde o primeiro momento, seriam para sempre. Deborah é uma dessas pessoas. Sua casa era o local de encontros semanais entre bauruenses, que por alguma razão estavam na Capital. Estudantes, jovens e não tão jovens assim participavam dessas alegres noitadas ao som do violão do norte-americano Henri. Herdei dela minha vocação para reunir pessoas ao redor da mesa para comer e conversar, além do poderoso vício da leitura, pois nada se compara ao prazer ligado à magia da palavra, ao assombro permanente ante a força de situações e diálogos. Deborah é uma apaixonada pelas artes em geral, por bons livros em particular e pela cultura francesa, por razões pessoais. Adora viajar e a soma de suas viagens pelo Brasil e exterior deve dar diversas voltas ao mundo. Quando morou em Bauru, começou fazendo resumos para seus alunos até chegar à autora mais lida no país, dentro do segmento pedagógico. Seus livros eram escritos para as diversas regiões brasileiras: do Rio Grande do Norte ao do Sul. O João Francisco Tidei de Lima, por exemplo, confessou que guarda todas as cartilhas da Deborah, nas quais estudou. Quando faço um retrospecto da minha vida sinto a onipresença de algumas mulheres fortes, tais como, minha bisavó, minha tia-avó Emilia e minha filha Janaina. Entretanto, duas bauruenses marcaram-me de forma indelével. Odila Simonetti e Deborah Pádua Mello, mulheres fora de seu tempo, no sentido lato do termo: vanguarda, mesmo.

A senhora Leônidas Simonetti é uma mulher atenta e sofisticada. Bonita, simpática e elegante tinha um verdadeiro fã-clube nos bons tempos do Teatro São Paulo. Nessa época, ela guiava um cadillac azul. Menina, ainda, ao vê-la passar pensava, quero ser igual à dona Odila quando crescer. Igual em coragem, em educação, em bondade, em requinte, em ousadia e por que não em elegância? Seu guarda-roupa era lendário.Só fui conhecê-la quando sua nora, minha amiga Bravanil, estava grávida de sua primeira filha. Encontrei-as entre linhas e agulhas, literalmente, tricotando. Lembro-me dela oferecendo um café, saindo da sala descalça, voltando com a bandeja e as xícaras. Ao relembrar os fatos vejo na prática, o binômio: simplicidade versus refinamento. Aos oitenta anos continua a mesma. Seu sorriso maroto parece dizer: quando eu me debruço sobre o passado e mergulho em minhas lembranças revivo momentos inesquecíveis, memoráveis... Afinal não é qualquer dama da sociedade bauruense que ostenta em seu currículo o fato corriqueiro de ter hospedado o presidente Getúlio Vargas e de ser recebida no Palácio das Laranjeiras.

Deborah e Odila: patrimônios humanos e culturais bauruenses para serem lembrados sempre!

A autora, Janira Fainer Bastos, é coordenadora do curso de pós-graduação Design de Interiores do Iesb

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