Fingimos que não gostamos, falamos que não precisa, despistamos de toda maneira, mas nos sentimos muito bem ao sermos lembrados. Afinal, quem não gosta de elogios? Quando vocês nascem, filhos, não sabemos se seremos capazes de fazer aquilo que nossos pais fizeram tão bem, porque nessa hora ocorre um transe em nossas vidas: passamos de filhos para pais num piscar de olhos e este emprego novo é de muita responsabilidade e o salário nem é tão bom assim...
Temos que equilibrar carinho e autoridade, rigor com candura, esquerda com direita. Misturar restrições com liberdade e, às vezes, Palmeiras com Corinthians.
E talvez esta antítese eterna deva ser a alma do significado de ser pai. Porque este pout-pourri de sentimentos, de atitudes, pertence ao cardápio que está à nossa disposição durante o trato das situações que um filho ou uma filha nos propõem, desde o primeiro grito - de socorro - na maternidade. Como lidar e utilizar este minestrone de opções é que são elas. Corre-se riscos de abrir muito e não conseguir fechar mais, de grudar tanto ao ponto de miscuir personalidades e não conseguir descolar na hora certa, desaguando num choro doído na hora de despedidas. Pode-se endurecer em demasia sem perceber que uma casa não é um quartel e também há a possibilidade de, sob a batuta da modernidade, fazer desafinar a orquestra com as notas dissonantes da rédea solta e sem limites estabelecidos.
Percebemos, filhos e filhas, que ser pai desperta mesmo, doce e salgado, sim e não, falso e verdadeiro, a treva, mas também a luz. E um dia como o de hoje não poderia ser diferente e traz com ele a ilustração do que é ser pai. Sentimos muita alegria por termos juntos de nós filhos e filhas e vocês, nós, pais. Mas também a tristeza é inevitável e seria injusto não lembrar dos que já não estão mais aqui. E, desafortunadamente, quanto mais queridos e exemplares, maior a sua presença, maior a saudade, maior a dor da saudade.
Assim se faz um pai: riso e choro, futuro e passado. Mas o presente, o hoje, serve para ser vivido agora e para sempre, sem esquecer que ser pai possui uma inquestionável e divina qualificação, que não permite ambigüidades nem dúvidas na sua definição: a divina doação total, que só o respeito e o amor infinitos realizam.
O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista e cronista