Ser

Pai por toda a vida

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 9 min

Hoje é domingo, nada de mais. Você toma seu café da manhã, escolhe a roupa para a corrida matinal, liga a TV ou resolve lavar o carro. De repente, o seu filhote que acabou de sair da cama vem gritando e te agarra pelo pescoço. Não, ele não quer te asfixiar. É um domingo, o segundo do mês de agosto. Um estalo e... “Dia dos Pais”.

Um dia por ano, oficialmente, mas para a maioria dos filhos o dia do pai herói é aquele em que ele deixa o trabalho por meia hora e brinca, o ajuda a estudar, dá carinho ou aquela força. Tenha o filho a idade que tiver. Os pais, dependendo do estágio em que se vêem da paternidade, são encarados por seus rebentos como autoritários, caretas, retrógrados... Mas, independente da época, sempre são especiais, homens mais que importantes, únicos. E quando o filho torna-se pai, apesar das diferenças de épocas, vidas e crenças, há sempre um “quê” do “velho”, do modelo que o fez adulto e, agora, pai.

O publicitário Sérgio Franco, filho de seu Sérgio há 43 anos e pai de Júlia há 16 e Luíza há 13 anos, escreveu um pouco sobre essa experiência do “filho/pai” ou do “pai/filho”. Em “As 500 melhores coisas de ser pai”, procura reviver os momentos marcantes na vida, acompanhando cada fase da vida de um pai, desde a concepção do filho até seus momentos finais aqui na Terra - ou indo um pouco além com humor e sensibilidade.

O livro de 112 páginas editado pela Matrix é baseado no “conhecimento de causa” de Franco e na experiência de amigos e traz o prefácio do publicitário Washington Olivetto. Para os filhos atrasados, o livro despretensioso, mas nem por isso desinteressante, é um ótimo presente.

Jornal da Cidade - O que é ser pai para você?

Sérgio Franco - É difícil classificar o que é ser pai num universo repleto de chavões como “Pai é quem cria”, “Pai só tem um” ou o indefectível “Pai é Pai” que acabam esvaziando um pouco a emoção da coisa. O melhor é definir com um outro clichê, este sim emblemático mas verdadeiro: “quem é pai, sabe o que isso significa”.

JC - O texto de divulgação sobre o seu livro começa com a sentença de que “ser pai é sacrificante”. É uma experiência em que as coisas boas compensam as dificuldades? De que forma?

Sérgio - O que o release diz, na verdade, é que se “ser pai” fosse uma profissão, ela seria uma das mais sacrificantes. Porque exige dedicação integral, uma grande dose de responsabilidade e não dá direito a nenhum dia de férias. É uma tarefa incondicional e sem descanso. Em compensação, o sorriso de um filho seria um pagamento sem igual. E é exatamente o que acontece na prática. A realização espiritual compensa qualquer dificuldade.

JC - O que o motivou a escrever o livro? É a primeira empreita literária?

Sérgio - Como todo bom redator publicitário, eu sempre sonhei em escrever um livro. E como perfeccionista que sou, não poderia ser nada sem embasamento teórico, sem pesquisa. Cada vez que eu lia grandes livros (fossem clássicos ou best sellers) eu me desmotivava. Tudo já parecia ter sido dito de uma maneira antológica por grandes escritores e, mesmo em casos onde o caráter comercial ofusca o valor literário da obra, as pesquisas eram sempre evidentes. Vide “O Código Da Vinci”, um blockbuster no sentido comercial, mas com uma base de pesquisa que beira a insanidade. Quando fui convidado pelo Paulo Tadeu (editor do livro) para escrever “As 500 melhores coisas de ser pai” senti na hora que tinha a faca e o queijo na mão. A pesquisa estava pronta e arquivada em minha cabeça durante meus 43 anos de filho e 16 de pai.

JC - Quais são as pretensões da obra?

Sérgio - Chamar o livro de obra é até uma afronta aos escritores de verdade. E isso já denota minha falta de pretensão literária. Eu procurei sair totalmente do universo de propaganda, onde vivo submerso 24 horas por dia, e escrever como pai. Posso dizer que a minha pretensão foi documentar algo que todo mundo sente todos os dias e nem sempre se dá conta que essa rotina pode ser lírica e emocionante.

JC - Quais as principais dificuldades em escrever o livro?

Sérgio - A maior dificuldade foi agrupar as idéias de modo a tornar o livro mais agradável e não uma folha corrida de eventos, como se fosse uma lista de compras de supermercado. A solução foi dividir a vida do pai em fases, misturando muitas vezes dados autobiográficos com dados ficcionais baseados na vida de vários pais conhecidos meus.

JC - No livro você aborda todas as fases da experiência de ser pai ou se atém a uma delas, como a infância, por exemplo? Por quê?

Sérgio - Procurei abordar todas as fases, da concepção do filho (que o tornará pai) até o “post mortem”, simulando a visão de um homem que já abotoou o paletó mas que ainda consegue encontrar vantagens em ter sido pai.

JC - Conte um pouco da sua experiência como pai. Quais os sacrifícios que fez e as coisas boas...

Sérgio - Hoje tenho uma família nos velhos padrões. Eu e Neusa estamos casados há 19 anos. Temos duas filhas, a Júlia (16) e a Luíza (13). Como hoje estou com 43 anos, fui pai aos 27. Novo, para os padrões atuais. Velho para os padrões antigos. Nessa época eu procurava me consolidar como redator publicitário e a carga de trabalho era insana. Foi difícil conciliar minha nova condição à rotina desumana da agência que eu trabalhava. Chegava tarde em casa, saía cedo e tentava ficar acordado à noite para desfrutar da companhia da Júlia entre uma mamada e outra. Nos fins de semana em que eu não trabalhava, o cansaço era intenso, mas quando você é pai recente você desenvolve a capacidade de ignorar o cansaço. E com o tempo vai adquirindo novas capacidades que eu conto no capítulos “Superpoderes de pai”.

JC - Quais são as inspirações do livro?

Sérgio - Obviamente o livro foi inspirado pela Júlia e pela Luíza, minhas filhas, mas com a participação muito especial da Neusa, minha mulher, com quem eu compartilho cada detalhe de minha vida.

JC - Qual a experiência mais usada na obra: a de pai ou filho? Por quê?

Sérgio - A idéia era escrever um livro que não fosse somente uma obra para pais, mas uma leitura prazerosa a todas as pessoas que, na qualidade de filhos, tiveram algum tipo de convivência com a imagem paterna, seja ela intensa ou não. Dessa maneira, experiências como filho e como pais se mesclaram igualmente.

JC - Como foi ser filho e neto e agora pai? O que se parece e o que é totalmente diferente entre as duas situações?

Sérgio - É totalmente diferente. Só depois que você se torna pai é que você realmente tem uma vaga noção do que seu pai ou avô sentiam. Ser neto é contar com o amor incondicional e permissivo de alguém que definitivamente não tem a pretensão de te educar. Ser filho é contar com um amor ainda maior de alguém que às vezes pode até parecer mau, porque afinal de contas não se deve poupar recursos na hora de preservar sua prole. E ser pai é isso que eu descrevo no livro. Pelo menos a parte boa. A parte ruim, de verdade, eu não lembro.

JC - O novo filme de Daniel Burman, “As leis de família”, fala sobre as semelhanças que os filhos adquirem em relação a seus pais ao terem seus próprios filhos. Você concorda com essa proximidade? Ficou mais parecido com seu pai?

Sérgio - Às vezes eu me olho no espelho e vejo o meu pai, embora não pareçamos muito fisicamente. Mas o olhar, a expressão, o jeito de sorrir e até o jeito de demonstrar contrariedade franzindo a testa é absolutamente igual. Se fisicamente conseguimos desenvolver uma semelhança ainda que não tenhamos nascido com ela, imagine em relação às atitudes e princípios...

JC - Você crê que a forma de relacionamento entre pais e filhos se alterou no decorrer dos anos?

Sérgio - O conceito de família se alterou. Hoje, uma família estável, onde o pai sempre foi casado com a mãe e vive com os filhos desde sempre, é só uma das possibilidades. Nesse leque de situações, fica difícil generalizar e caracterizar um tipo de relacionamento. Acho que cada família tem sua história e ponto. Sem entrar no mérito se os tempos modernos deteriorou ou não as bases do que chamamos de relacionamento familiar.

JC - Pai hoje, para você, ainda é referência de exemplo e herói? Com nosso panorama pós-moderno essa experiência de “modelo” foi um pouco perdida. Como mantê-la?

Sérgio - Pai é herói e tem poderes. Quer seja nesse panorama pós-moderno, quer seja nos romances do Machado de Assis. A relação pai e filho e os sentimentos gerados são pessoais e indescritíveis. O pai sempre vai ser o exemplo de homem ideal a ser atingido pelo filho, bem como criar um filho dentro dos seus princípios sempre será a meta de um pai. Logo, ele é um herói idealizado com uma missão e tudo o mais. Como nas histórias em quadrinhos.

JC - Como você vê a relação entre pais e filhos em São Paulo e, por que não, Brasil, de uma maneira geral? Somos “latinos” e a expressão de sentimentos ainda e pouco encorajada. Você concorda? Como foi sua relação com esse aspecto na relação pai e filho e filho e pai...

Sérgio - Acredito que essa frieza, essa dificuldade de expressar sentimentos não é uma questão geográfica e sim mais uma das mudanças de comportamento que acontecem com o tempo. Nas velhas sociedades patriarcais a figura paterna era sinônimo de autoridade suprema e de virilidade. É dessas épocas que deve vir a máxima de que “homem não chora”. Quando eu era criança não podia conceber que meu pai talvez chorasse. Hoje sei que a coisa não é bem assim e que ele é sensível do jeito dele, mas os padrões impostos eram esses. Assim, uma manifestação de carinho mais exacerbada caía um pouco nessa categoria das emoções pouco masculinas. Hoje isso não existe ou existe muito pouco. A mídia difunde essa imagem do homem sensível e esse tabu praticamente inexiste.

JC - Para um publicitário, como foi se aventurar pelo mundo das letras?

Sérgio - Mais do que me aventurar no mundo das letras, escrever “As 500 melhores coisas de ser pai” foi como fazer um inventário da minha vida. Uma espécie de autobiografia “levinha” de alguém desconhecido e que por isso acaba sendo a biografia de todo mundo que é pai. Nessas últimas semanas, sem fugir de minhas atribuições profissionais, pude me esquecer um pouco da propaganda. Na briga entre o “escritor” e o “publicitário”, quem venceu foi o “pai”.

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