Internacional

‘Hermanas’ na política

Por Rodrigo Rötzsch | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Maioria na população argentina (são 51,3%), as mulheres ganharam nos últimos anos representatividade na política, impulsionadas por uma lei de cotas que prevê que ao menos 30% das vagas de deputados e senadores devem ser preenchidas por elas. Agora, esperam o desenlace de uma campanha presidencial em que o sexo feminino é protagonista para que o avanço deixe de ser apenas numérico.

Desde 1995, vigora a lei na Câmara; em 2001, passou a valer no Senado. Hoje, as mulheres já superam o mínimo de lugares que lhes é obrigatório pela lei - são 42% no Senado e 33% na Câmara. Assim, fazem da Argentina um dos dez países com mais mulheres no Parlamento, muito à frente do Brasil.

Há, porém, ressalvas. “Essa presença não assegura que elas ocupem postos influentes no Legislativo nem que se incorporem temas femininos na agenda política’’, diz Beatriz Kohen, da Associação de Direitos Civis e ex-diretora da Equipe Latinoamericana de Justiça e Gênero.

De fato, não há hoje no Senado argentino nenhuma líder de bloco partidário. Na Câmara, mulheres só lideram bancadas de até quatro integrantes. “Quantitativamente, a Argentina é um dos países com mais mulheres políticas no mundo. Mas, qualitativamente, nem sempre elas compartilham com os homens a mesa do poder’’, diz o cientista político Julio Burdman.

O quadro traçado pelos dois analistas, porém, parece estar lentamente mudando. As eleições deste ano na Argentina mostram que as mulheres estão se valendo de sua experiência no Legislativo para fazer o salto para o Executivo, onde não há cotas.

As duas principais candidatas à Presidência nas eleições de outubro são mulheres e vieram do Parlamento: a ex-deputada Elisa Carrió, segunda nas pesquisas e que tenta pela segunda vez chegar à Casa Rosada; e Cristina Fernández de Kirchner, favorita absoluta, que, antes de ser primeira-dama, construiu desde 1989 sua carreira no Legislativo e é senadora por Buenos Aires.

Outra deputada, Fabiana Ríos, aliada de Carrió, se tornou no mês passado a primeira governadora eleita do país. Ela derrotou dois candidatos apoiados por Kirchner e governará a partir de 2008 a Província de Terra do Fogo.

A também parlamentar Gabriela Michetti, por sua vez, foi apontada como fator primordial para a eleição de Mauricio Macri para a Prefeitura de Buenos Aires. Segundo as pesquisas, a presença de Michetti como vice na chapa de Macri “humanizava’’ o candidato. Ela agora é cortejada para ser mais uma mulher a concorrer à Presidência em outubro.

Para Burdman, a eleição de uma mulher para a Presidência teria um impacto muito positivo para as mulheres políticas argentinas: “Num governo de Cristina, iriam se designar muitas mulheres para cargos do primeiro escalão. No nível internacional, seria impactante que Argentina e Chile fossem ao mesmo tempo governados por mulheres. São países com excelentes relações, mas com conflitos em potencial, como na questão energética. Como estes conflitos seriam administrados por duas mulheres no poder? Não há antecedentes históricos nesta matéria’’, diz.

____________________ Impulso

O governo de Néstor Kirchner teve importância na ampliação da participação das mulheres na política argentina. Até o mês passado, seu gabinete detinha o recorde de ministras: três dos 11 postos eram ocupados por mulheres.

Kirchner cedeu às mulheres postos-chave nunca antes controlados pelo sexo feminino na Argentina, como a Defesa e a Economia. Por conta de um escândalo, a última pasta voltou para o comando de um homem.

Kirchner também foi o primeiro presidente a nomear uma mulher para a Corte Suprema - agora já são duas. Apesar da trajetória política de Cristina, os analistas coincidem que, sem o marido, ela não teria chances reais de vitória. “Não creio que ela chegasse a esse ponto sem que antes Kirchner tivesse passado pela Casa Rosada’’, diz o cientista político JúlioBurdman.

Para Kohen, serão necessárias outras medidas para que as mulheres se igualem aos homens na política. “Deveria haver cotas nos partidos para fomentar sua participação, e não só na hora de fazer as listas eleitorais. A política foi feita por homens e para homens; por isso lhes custa dar lugar às mulheres e respeitá-las’’, afirma.

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À sombra de Perón

As duas principais mulheres na história da política argentina até hoje têm algo em comum: foram casadas com o mesmo homem, Juan Domingo Perón, presidente por três mandatos. A fama de Evita se construiu por estar à frente da política social do governo de Perón, criando uma forte relação com os trabalhadores.

Evita também foi uma militante pelos direitos da mulher: já doente, participou em seu leito, da eleição de 1951, a primeira em que mulheres puderam votar na Argentina. Já Isabelita chegou onde Evita não pôde: eleita vice-presidente em 1973, assumiu como a primeira mulher presidente da Argentina (e da América Latina) após a morte do marido, em 1 de julho de 1974.

Em seu governo de 21 meses, a situação econômica e social se deteriorou rapidamente, até que, em 1976, ela foi derrubada pelo golpe que deu início à última ditadura militar no país. Desde 1981, Isabelita, hoje com 76 anos, vive na Espanha.

Em janeiro deste ano, Isabelita foi presa por ordem de um juiz argentino que investiga a morte de um estudante e o desaparecimento de outro durante o seu governo. Atualmente, a ex-presidente é alvo de um processo de extradição.

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