Bairros

‘Não moro na rua; sou compositor’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

Viaduto da avenida Nações Unidas, noite de terça-feira. Pouco depois de ingerir quase um litro e meio de cachaça em companhia do colega Osório Pedro, o mestre de obras Lázaro Firmino luta para pegar no sono. Seus pertences são uma mala velha, um cobertor rasgado e a roupa do corpo, sem contar meia garrafa de uma aguardente de marca desconhecida.

Apesar de possuir tão pouco, ele não gosta de passar a impressão de que está por baixo. “Quem te disse que eu moro na rua? Por acaso tenho cara de mendigo?”, diz, exibindo um par de meias esburacadas. Firmino tem 48 anos e é natural de Curitiba, Paraná. Garante ser “mestre de obras formado, com diploma e tudo”. “Se você quiser, eu mostro minha carteira de trabalho, para provar que estou dizendo a verdade”, oferece.

Como pedreiro, afirma ter ajudado a construir pelo menos seis prédios na capital paranaense. Embora insista em dizer que tem morada fixa, atualmente Firmino vaga de cidade em cidade à procura de trabalho na lavoura. Recentemente, ele esteve colhendo café em Ourinhos e, nas próximas semanas, o ex-mestre de obras pretende rumar para Holambra, onde espera encontrar emprego em alguma plantação de laranja.

‘Garganta de ouro’

Uma coisa que não falta a Firmino é garganta - tanto para cantar quanto para contar vantagem. Histórias de sucesso profissional é o que não faltam em seu repertório. Além de pedreiro, ele garante ser compositor

Diz, inclusive, que teve três músicas gravadas por Amado Batista, mas não é capaz de especificar quais seriam as letras em questão. “Tenho de preservar meu sigilo profissional”, argumenta.

Firmino nem sempre morou na rua. “Eu era casado, tinha filho, apartamento, carro, tudo o que você possa imaginar”, afirma. Ele resolveu abandonar todo esse conforto material e se separar da esposa por incompatibilidade no relacionmamento, revela.

Hoje, Firmino é obrigado a aplacar seu “furor sentimental” com garotas de programa. Ele afirma ter duas composições inéditas e diz que gostaria de vê-las gravadas por alguma dupla sertaneja famosa (veja os trechos abaixo). “Não sei se Chitãozinho e Xororó teriam garganta para cantar minhas músicas. Acho que elas ficariam melhor nas vozes de Milionário e José Rico”, avalia.

____________________ Eu saí de Ourinhos

Lázaro Firmino

“Eu saí de Ourinhos

Com destino ao Paraná.

Eu fui procurar

Um trabalho pra fazer,

Em que eu ganhasse mais,

Pra minha família eu sustentar

Mas, para minha sorte,

Na Marechal eu fui morar...”

Gaúcha

Lázaro Firmino

“Fui convidado pra tocar num baile

Foi na fazenda do Figueiredo.

Chegando lá, tive uma surpresa,

Fui recebido por uma camponesa...”

____________________ O bom filho

Nos últimos anos, o cruzamento das avenidas Duque de Caxias e Nações Unidas se converteu na morada do catador de papel José Carlos Gomes da Lapa. Não que ele precisasse. Na verdade, o rapaz de 28 anos não é um desses que vive perdido no mundo.

Tem família - mãe, irmãs - e, se quisesse, não precisaria procurar abrigo no chão frio e sujo do viaduto. Mas Lapa é um rapaz de consciência. Usuário de drogas (“cola, ‘farinha’, ‘pedra’, maconha, tíner, pinga e tudo o que serve pra deixar ‘doidão’”), ele preferiu sair de casa, para não causar desgosto à mãe.

“Ela é crente (é fiel da Congregação Cristã no Brasil) e não aceita que eu use droga. Achei melhor ir embora. Não queria que ela ficasse chateada comigo”, explica. Pelo menos uma vez por mês, o “bom filho” costuma retornar ao lar para visitar a mãe. “Ela fica feliz quando me vê, mas não admite que eu leve meus colegas de rua até lá”, diz.

Lapa começou a fumar maconha quando tinha 13 anos. Aos 14, já cheirava cola e tíner. Abandonou o lar assim que completou 19 anos e, depois disso, chegou a ser preso por furto. “Graças a Deus, fui punido”, acredita. Nunca freqüentou escola, mal sabe ler e não tem esperanças de deixar a vida nas ruas. “Fico aqui até quando o Senhor quiser”, afirma.

____________________ Fé

Fernando Tavares da Conceição também dorme embaixo do viaduto da avenida Nações Unidas. No princípio, nada indicava que ele pudesse se tornar um morador de rua. Ele cursou até a 7.ª série e chegou a se formar como operador de caldeiras pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de Bauru.

Tinha emprego, casa e um futuro promissor. Mas daí veio uma decepção amorosa, que acabou destruindo a vida do rapaz. Depois de passar um tempo meio desorientado, Conceição resolveu entrar para o mundo crime. “Pensei que essa seria a saída para os meus problemas”, conta.

Roubou, invadiu residências, tornou-se viciado em drogas pesadas. Acabou sendo preso por furto qualificado, cerca de 10 anos atrás. “Eu estava perdido, mas graças a essa palavra consegui me salvar”, explica, exibindo um folheto evangélico intitulado “Fé”.

Atualmente, Conceição está com 36 anos e pede esmolas para poder se manter. Bebe e usa drogas, mas só quando tem dinheiro para bancá-las. “Por Jesus, nunca mais roubei”, garante.

____________________ Destino traçado

Gérson Carvalho tem 38 anos e mora na rua desde que se entende por gente. Alcoólatra e viciado em drogas, ele possui condenações na Justiça por roubo, furto qualificado e, segundo ele próprio admite, assassinato. “Já perdi as contas de quantas vezes estive preso”, diz.

A última vez que o morador de rua saiu da prisão foi no começo deste ano e, desde então, ele não tem demonstrado muito ânimo em retornar ao mundo do crime. “Não compensa”, afirma.

Por outro lado, Carvalho também não tem tido muitas oportunidades de sobreviver de maneira digna. Além de possuir problemas psicológicos (perde a calma com extrema facilidade), hoje em dia ele mal é capaz de levantar o braço direito, em decorrência de um acidente sofrido meses atrás. “Ando meio ‘machucadão’, por isso não estou conseguindo trabalhar”, diz.

Caso estivesse em plena forma, Carvalho garante que iria recolher materiais recicláveis para ganhar a vida. Se bem que, morando sob um viaduto da avenida Nações Unidas, ele quase não tem despesas. “Dez vez em quando, os irmãos da Igreja (não sabe dizer qual) trazem roupa e comida para mim”, diz.

Como não tem de gastar com alimentação e vestuário, sua grande preocupação é conseguir alguns trocados para o cigarro e a bebida. Ele costuma consumir, em média, dois litros de cachaça por noite.

Natural do Distrito de Potunduva, município de Jaú, Carvalho perdeu completamente o contato com a família. “Sei que minhas duas irmãs estão casadas, mas não faço idéia de onde elas vivam”, garante.

Carvalho, que chegou a cursar o ensino médio, ficou órfão de mãe aos 7 anos de idade. O pai ele já havia perdido aos 4. A grande lembrança que ele guarda da época de infância é a avó. “Chamava-se Girulina - era uma ‘mendigona’ que corria o trecho pedindo esmola. Só não digo que puxei a ela porque, se formos analisar, hoje estou numa situação bem pior do que a dela”, pensa.

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