Um automóvel é resultado de muito projeto técnico, com estudos e testes que envolvem tecnologia específica em altas doses. As leis físicas e matemáticas não podem ser desrespeitadas assim como as de trânsito. Para o usuário final, um carro é um bem de consumo que pode ser potente, bonito ou econômico apenas, e ele não quer nem precisa saber das dificuldades por que passamos para projetar seu carro. Mas nem tudo é técnica formal em uma fábrica de automóveis (pelo menos no Brasil) e uma das brincadeiras que fazíamos nas montadoras em que trabalhei era colecionar nomes de bichos usados nos componentes dos carros brasileiros e traduzi-los para o inglês e alemão, a fim de confundir os colegas estrangeiros... Já pensou em quantos nomes copiamos do reino animal e os usamos em um carro?
Vejamos alguns exemplos, começando pelos mais óbvios, como “cavalo”, que é usado como medida de potência dos motores. Vem de cavalo-vapor, que é uma tradução do inglês horse power (de onde vem HP) ou do alemão Pferde-Stärke (o popular PS dos motores dos Porsche, BMW e Mercedes), uma medida antiga de medição de potência. Hoje a unidade correta é o quilowatt ou kW.
Outro nome comum usado é o “macaco”, equipamento usado para levantar o veículo para trocar um pneu. Em oficinas e borracharias usam-se macacos hidráulicos grandes e pesados chamados de “macaco jacaré”, dois bichos que garanto nunca se cruzaram, formando espécies híbridas... Aliás, o nome “jacaré” é também emprestado da natureza para batizar um tipo de fixação por pinça com mola, usado para conectarem-se cabos elétricos provisoriamente a sistemas elétricos, como em checagens, análises ou carga de baterias. Também em oficinas usa-se um guindaste manual conhecido por “girafa”, pelo seu jeitão pescoçudo.
Quem nunca apertou uma “porca” solta no carro? Ou não fez uma ligação direta de farol de milha sem passar pela caixa de fusíveis, o chamado “gato”? Estes são os mais óbvios e comuns no vocabulário automobilístico. Existem os mais técnicos (ok, nem tanto...) que designam componentes fundamentais no veículo, como o “burrinho” de freio, que nada mais é do que o cilindro-mestre, acionado pelo pedal de freio. E que de burro não tem nada! No conjunto da embreagem tem um componente chamado “gafanhoto” pela sua forma, e não tem jeito, é o gafanhoto da embreagem e pronto.
No sistema de alimentação temos a “borboleta” do carburador ou o “corpo da borboleta” da injeção, que é uma válvula de regulagem da entrada de ar do sistema. É que esta válvula se parece com as asas de uma borboleta mesmo, daí o nome.
Quando o motor começa a detonar, ou seja, produzir ondas de choque por pré-ignição devido à má combustão, dizemos que está batendo pino ou “grilando”, como se tivessem pinos que realmente batessem ou “grilos” dentro do motor. A propósito, o nome “grilo” também se aplica aos barulhos irritantes de peças soltas ou se atritando dento do carro, que ficam fazendo aquele 'cri-cri-cri' característico.
Os elementos refletivos das lanternas traseiras são conhecidos como “olhos-de-gato”. Já um tipo de defeito de pintura por trinca do verniz é chamado de “pé-de-galinha”. Um parafuso Allen sem cabeça, usado em trava de flanges em eixos é conhecido por “mosca”. Na bolsa de ferramentas podemos ter um alicate tipo “bico de papagaio”, um martelo “rabo de andorinha”, um “pé-de-cabra” (que é uma alavanca) ou braçadeiras plásticas do tipo “enforca gato”...
A criatividade dos mecânicos não acaba. Caso se lembre de mais alguns nomes ou mesmo frases, mande-nos que publicaremos, pois queremos completar a coleção. E lembre-se: dirija com segurança para não dar “zebra”, pois o perigo não está na quantidade de “cavalos” do motor, mas no “burro” atrás do volante...
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.