Política

Favores abrem crise na Credserv

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

O favorecimento a pelo menos dois ex-integrantes de diretorias, um do governo anterior, outro no atual, através da liberação de pagamentos de créditos com cheque e empréstimos, a ocorrência de perdas financeiras provocadas pela imobilização de patrimônio com a compra de dois imóveis entre 2003 e 2005 e a utilização de recursos em favor de material de campanha de candidatos estouraram dentro da diretoria da Cooperativa de Crédito dos Servidores Públicos de Bauru (Credserv) e abriram crise interna.

A má gestão e utilização de recursos para favorecer ex-integrantes da administração foram parar no Fórum de Bauru através de ações que tentam recuperar os prejuízos causados nos períodos em que a cooperativa foi presidida por Roberto Ceresini e, em uma fase posterior mas por pequeno prazo, Éverson Demarchi.

As operações, aliadas à utilização equivocada de recursos para comprar imóvel, que depois foi vendido em troca de aluguel pago pela própria cooperativa que era proprietária do local, provocaram a despatrimonialização do grupo e colaboraram, junto com a autorização de não-recebimento de dívidas em favor de associados, com a elevação dos índices de risco, em 2006, cuja ocorrência teve como principal causa, segundo o ex-presidente, problemas no sistema de base de dados.

A maior parte das operações ocorreu entre 1997 e maio de 2005, quando Roberto Ceresini presidiu a cooperativa. Ele reconhece que a compra dos imóveis foi equivocada. A Credserv comprou por R$ 59.194,49, em outubro de 2002, uma casa que ficava quase em frente onde funcionava a sede, na quadra 10 da rua 1º de Agosto. A aquisição, até hoje não explicada, teria sido feita com o objetivo de se demolir o imóvel para construção da sede própria.

Mas a casa ficou 17 meses sem ser utilizada, período suficiente para que a cooperativa perdesse R$ 20 mil pela imobilização do investimento, isso a 2% ao mês. “A idéia era demolir. Sei que foi um mau negócio, mas todo mundo erra. Vimos depois que para fazer sobrado era preciso estacionamento subterrâneo. Então a casa foi vendida por R$ 56 mil”, em março de 2004, confirma Ceresini.

Apesar de hoje reconhecer o “péssimo negócio”, o então presidente não aprendeu com a lição. Perto de agosto de 2005, o mesmo Ceresini autorizou a compra de outro imóvel na quadra 13 da rua Araújo Leite, onde está a Credserv até hoje, por R$ 100 mil. Detalhe: a cooperativa aceitou ‘receber’ o valor como aluguel daquilo que já era seu. “Fizemos contrato por 10 anos e nos primeiros 25 meses o pagamento foi trocado pelo aluguel mensal de R$ 4 mil do imóvel que vendemos”, conta o então presidente.

No próximo mês, a Credserv passa a desembolsar aluguel mensal para ocupar o imóvel que era seu, além de ter deixado de obter retorno por empréstimos se tivesse mantido em circulação entre os associados os R$ 100 mil. A 2%, a despesa para a compra do segundo imóvel renderia R$ 3.120,00/mês.

Roberto Ceresini concorda que a nova compra “repetiu o mau negócio”, mas, neste caso, diz que não “houve perdas porque acabamos levantando que para reformar o prédio seria necessário gastar R$ 276 mil. Então decidimos que ao invés de imobilizar tudo isso era melhor manter o valor em circulação com empréstimos para render R$ 6.000,00 ao mês”, argumenta. Como a conta do rendimento jogado fora não foi feita antes das duas compras, Ceresini novamente “lamenta o erro”.

Procurada para comentar as ocorrências, a atual presidente da Credserv, Vanuza Beluci, menciona que os fatos estão sendo levados aos conselheiros e à diretoria em assembléia e que “todas as cobranças estão agora sendo feitas em juízo”.

A contratação de assessoria jurídica no período anterior também exigiu o desembolso de mais de R$ 30 mil em pagamentos e o relatório da administração de junho de 2005 a junho de 2006 apontou perdas acumuladas de R$ 184 mil. Para Ceresini, “houve problema no sistema, o valor não é prejuízo, é apenas contábil”. Neste momento, a cooperativa voltou a registrar elevação nas sobras de capital em favor dos associados.

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Jorge Monteiro e Rubens de Souza

A regra nas operações da cooperativa de crédito é realizar empréstimos ao servidor associado com desconto consignado em folhas de pagamentos a custo financeiro mais barato para os associados, quase 3.000 servidores, e de liquidar despesas com limites de cheques. Mas esta regra não foi seguida pela cooperativa em relação a limites com cheque especial para o então presidente da Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab), Rubens de Souza.

Anteontem, a nova direção da Credserv ingressou com ação judicial para tentar recuperar pelo menos R$ 7 mil de créditos autorizados por Ceresini. “A regra é autorizar até o limite, mas isso ocorreu”, confessa. Para piorar, a presidência ainda aceitou que o associado resgatasse créditos capitalizados em 2004. “A regra é utilizar o saldo de capitalização do associado para quitar os compromissos, mas isso não foi feito, mas vamos recuperar, já entramos com ação”, tenta argumentar Ceresini, três anos depois.

Para justificar as liberações, Roberto indica que haveriam razões políticas e de traição à confiança. “Várias das medidas aqui eu passava e nem sempre via, porque o gerente fazia. Não dava para ver tudo. O que vejo hoje é que me sinto traído na confiança e apostei no gerente”, aponta Ceresini, em relação a Douglas Cirillo, que atuou na assessoria administrativa e financeira até janeiro do ano passado.

Sobre a acusação, Cirillo rebate: “na verdade, o Roberto nunca teve experiência com cooperativa e o que fez mostra que era mau gestor. Como presidente ele tinha como positivo o fato de ser centralizador, então sabia de tudo. Mas tudo o que foi feito ocorreu por ordem dele ou ele assinava”.

Para o ex-gerente, as compras dos imóveis foram péssimos negócios. “Comprou uma casa que depois não conseguia nem vender, por isso ficou vários meses parado, perdendo dinheiro que utilizou. Depois comprou outro e fez o absurdo de receber pela venda com o valor do aluguel”, ataca Cirillo.

Mas a crise também gerou perguntas para o gerente. No meio das operações, apareceu a compra de R$ 46 mil em móveis em uma loja cuja representante era namorada de Cirillo. Ele afirma que a aquisição, feita em 2005, foi respaldada por “três orçamentos na época e regular”.

Entre os prejuízos que a Credserv tenta recuperar também está uma ação ao valor de R$ 50 mil contra o ex-diretor da Emdurb, Jorge Monteiro. “O presidente na época não era eu, era o Éverson Demarchi. Ele sofreu pressão e liberou o Jorge de pagar a dívida da época sem resgatar a rescisão da Emdurb. Disseram que o pagamento iria ocorrer quando o Jorge fosse para a Cohab e isso não ocorreu. Eu enviei ofício para a Emdurb mandando descontar, mas o Éverson me desautorizou e liberou”, resume Ceresini que, nesta operação, era o gerente.

O pedido para a cooperativa deixar de receber pelo empréstimo teria vindo do então Gabinete, já neste governo. Ceresini admite a ingerência, mas situação que, mesmo antes, teria permitido outros favores. Perguntado se é papel da cooperativa pagar despesa com gráfica para campanha eleitoral de candidato do governo em 2004, o então presidente resume: “é complicado, não pode, não pode”. Até hoje, a cooperativa procura a nota fiscal da despesa original.

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