A afirmação que o Brasil está “blindado” e que portanto não será atingido pela crise dos empréstimos hipotecários americanos, com reflexos pipocando nas bolsas à volta do mundo, é mais ou menos como uma prece : todo mundo torce para que o Santo nos ouça, mas às vezes ele pode estar muito ocupado tentando controlar a gritaria do pessoal lá de cima que está próximo da histeria. É preciso olhar essa coisa da “blindagem” com a devida cautela. Desde que começaram os soluços avisando que ia terminar a farra dos “subprimes” (especulação dos Fundos com títulos de empréstimo do mercado secundário de habitação nos EUA), tenho insistido no seguinte: o Brasil é parte do mundo e não pode pedir como naquela peça da Broadway “parem o mundo que vou descer”. Então o Brasil vai ficar no mundo e se o mundo sofrer uma crise o Brasil, também ele, vai ser parte dessa crise.
Por enquanto os Bancos Centrais estão monitorando as turbulências atuais com razoável eficiência (e custos) ao redor do mundo. Eles aprenderam com as últimas crises, o que certamente ajudará a atenuar a próxima. Nesse momento, não há muito tempo para pensar em política: o que os Bancos Centrais fizeram foi abrir as portas e dizer “vem que tem!”. É preciso entender que os Bancos Centrais estão “apenas” superando um problema de liquidez instantâneo. Simplesmente estão dando liquidez aos mercados enquanto organizam os prejuízos. O prejuízo de quem comprou os “subprimes” vai ser acertado lá na frente.
Uma questão interessante é a transformação semântica nos papéis que os malandros ofereceram nos mercados: antes se chamavam “junk bonds”, algo como lixo, “porcaria” e foram rebatizados de “subprimes”, como um título de nobreza até se revelarem a mesma porcaria. Quem comprou os subprimes comprou lixo, mesmo, e vai amargar o prejuízo...
Como o sistema reage como manada, se o Banco Central não entra para garantir a saída organizada da gafieira, termina numa grande crise. Os Bancos Centrais entram dando essa liquidez que é para permitir que a água vá descendo sob controle. Agora, se realmente a acumulação desses débitos do setor imobiliário secundário assumir proporções gigantescas isso começará outra história.
Estou seguro que o Brasil está hoje muito melhor preparado do que estivemos nos últimos vinte anos para enfrentar uma eventual crise do mercado. Temos um saldo comercial na casa dos 40 bilhões de dólares e acumulamos reservas da ordem de 160 ou 170 bilhões de dólares. O governo brasileiro está numa situação muito interessante, porque não tem mais dívida externa. Terminou! Então, toda aquela agitação das esquerdas, aquela conversa mole durante tantos anos, já não pode amolar mais ninguém, porque a dívida deixou de existir, como devia acontecer, depois de ter prestado o serviço de sustentar o fornecimento de petróleo durante a grande crise mundial dos anos 80.
Estamos hoje livres do grande pesadelo do passado que era a dependência externa da energia, particularmente do petróleo. As pessoas talvez não se dêem conta de como a situação mudou com a autosuficiência em petróleo. Esta, sim, defende o Brasil das pressões dos mercados mundiais. Não há dúvida que o Brasil está melhor preparado para enfrentar as turbulências , as oscilações de bolsas e todas as flutuações de mercado, mas sem esquecer que somos parte do mundo e, portanto, da crise. Por enquanto esse friozinho de 5 graus que está aí, vai encontrar o Brasil com um bom capote. Estamos bem agasalhados e com capacidade de resistir. Devemos isso às mudanças que ocorreram em nossa economia nos últimos cinco anos. Mas, insisto, “blindagem total” é um exagero...
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento. e.mail: contatodelfimnetto@terra.com.br