A ditadura militar seguia a todo vapor em fevereiro de 1974. Estávamos todos em Curitiba: eu, minha esposa e dois filhos menores. Havia obtido aulas em escolas públicas e particulares. Naqueles anos de chumbo, era preciso um atestado do DOPS. Os militares não queriam professores “melancias” (verdes por fora, mas vermelhos por dentro).
Ouvi então, do delegado de polícia, esta “pérola”: “... temos ordens verbais do palácio do governo estadual para não mais fornecer atestados para paulistas; vocês estão tirando o ganha-pão dos paranaenses...” Senti-me um náufrago em pleno oceano, sem ter para onde ir. Já havia entrado no cheque especial, para o sustento da família. Vislumbrei uma tábua de salvação, em meio ao imenso mar do desespero.
O coronel do exército Antônio Erasmo Dias havia participado ativamente do golpe militar de 1964. Era uma figura de projeção nacional. Tanto é que foi secretário da segurança pública (SP) e deputado estadual várias vezes. Meu pai havia servido sob suas ordens (como um sargento) em quartéis da baixada santista. Conhecia pessoalmente o coronel porque meu pai costumava me levar aos quartéis quando ainda era criança.
Falei com firmeza ao delegado: “... vou telefonar para o coronel Erasmo Dias e saber dele se há algum dispositivo legal que proíba a um paulista lecionar no Estado do Paraná...” O delegado não pensou duas vezes, assinou incontinenti o famigerado atestado.
Gilberto Sidney Vieira - poderia ser um Politicando